Certa feita, como nas fábulas, um moço velho depois de muitas experiências, lutas, sonhos, frustrações, vitórias e derrotas, resolve percorrer seu passado e suas terras, há muitos anos distantes.
Suas terras são pontilhadas de serras, morros, montes e montanhas que mais parecem silhuetas e contornos de uma mulher nua, deitada de bruços na relva.
Suas terras também possuem gigantescos lagos, doces riachos e caudalosos rios, pinguelas e pontes, habitada por uma gente hospitaleira e religiosa que ainda descerra em suas janelas, colchas coloridas reverenciando a procissão que passa.
Suas terras possuem música, desde a barroca até as bandas, culminado no “Clube da Esquina” e os grandes músicos e instrumentistas.
Suas terras acordam no canto do galo e no mugir do gado, adormecem no último trinado do Canário Belga, no canto melancólico e solitário do Sábia Laranjeira, no perfume do Manacá e no ecoar triste do sino repicando ao longe.
Este senhor não sabe se busca os primeiros bailes com o rosto colado ou a matinê, esperando o apagar das luzes para sentar ao lado, pegar na mão o coração batendo, o primeiro beijo viria muito, muito tempo depois. Se levantar minutos antes do término do filme, saindo sorrateiramente como um amante ao amanhecer.
Na busca, percorre caminhos, museus, casarões, pousadas, becos, esquinas, além das igrejas cravejadas de imagens e anjos, brotadas pelos sonhos e as mãos de Antônio Francisco Lisboa, o “Aleijadinho”.
Caminhando pelo passado em um finalzinho de tarde úmido, sem a menor pretensão ou vontade, adentra uma antiga adega, destas com cheiros de eternidade, uma leve penumbra, iluminada pelos frios e últimos raios de sol, rompendo as vidraças seculares, batendo em um imenso armário, onde repousam, manteigas, banhas, fumos, palhas para cigarros, linguiças, carnes, leite, doces, queijos, ao lado, uma verdadeira exposição decorada com colheres de pau, lamparinas, castiçais, bacias, panelas de barro, tachos, baldes, ferramentas, formando aquele ambiente que cerrando os olhos, o imaginário faz surgir tropeiros, berrantes e carros de boi, como tão bem escreveu e definiu o gênio de João Guimarães Rosa.
Ao “aboletar” sobre um banco, em uma mesa no cantinho, o velho moço lembrou-se do amigo querido e brilhante advogado, Dr. Brasil Salomão, pediu uma cachaça mineira, uma cerveja, pão de queijo e torresmo.
Não havia percebido, em uma mesa próxima, sentada, absorta e concentrada uma jovem que retirou pela primeira vez os olhos dos livros, erguendo a cabeça, onde ele viu surgir uma imagem que o envolveu, onde pode comprovar a verdadeira definição do belo.
Um rosto, talvez nascido pela inspiração de “Rembrandt”, fixando um olhar penetrante, inebriante e sério, ancorados por um par de sobranceiras, em um desenho perfeito, retratados pelo pincel de “Monet”, a boca de uma perfeição divina e os lábios inspirados nas curvas da arquitetura de Niemayer.
Maravilhado e atordoado com a visão, tímido e quase aparvalhado sem saber o que dizer, indaga?
Você é mineira?
Com um meio sorriso, daqueles de parar a humanidade e o tempo por segundos, fazendo com que o Sol e a Lua se encontrem, respondeu:
Não! Sou paulistana, professora, arquiteta, editora e historiadora, com um tom catedrático e altivo, começou a discorrer sobre Vila Rica do Pilar, com um charme de Sofia Loren, em “‘Matrimônio à Italiana”’, de Vittorio De Sica.
“Estou pesquisando sobre toda esta maravilha que os séculos guardam, onde pretendo narrar e ilustrar meu novo livro, como a Igreja São Francisco de Assis, as igrejas de Nossa Senhora do Pilar, da Conceição e do Carmo, o Museu Casa dos Contos, a Casa de Tomás Antonio Gonzaga, o Museu dos Inconfidentes, o Centro Histórico com o cenário de suas ladeiras de pedras, e o casario branco com suas telhas de barro e esquadrias coloridas”.
Os olhares foram envolvidos com palavras, conversas, descobertas, quase confidências, acompanhadas de breves silêncios.
Seus olhos apertadinhos se abriam como “Damas da Noite” ao escurecer.
Caindo o escurecer a casa os brindou com um candelabro e as chamas brotando da vela desenhando gravuras na parede.
Pediram um vinho tinto seco, jantaram e saíram a caminhar na noite estrelada das montanhas lado a lado sob o manto da Lua Cheia.
Sentaram-se na calçada da Praça Tiradentes, no silêncio de duas almas e corações vividos, que não precisam mais de palavras para se entender, apenas a respiração e o coração batendo em compasso e sintonia, como se fossem antigos e eternos amores.
Num gesto sensível e terno, ela repousou a cabeça sob seus ombros, entrelaçados pelas mãos, os rostos colados e um beijo jamais vivido e sonhado surgiu.
Em um momento mágico, onde nada existe e importa, o hoje ou o amanhã, abraçados rumaram para uma pequena e romântica pousada em uma minúscula cama com cheiro de flores do campo.
Foi uma madrugada ardente e sem fim, de lareiras, vinhos, carinhos intensos, onde o moço velho descobriu algo presente em todos os lugares, nas pétalas, taças, na fonte que canta, no riacho que assovia, no entardecer, no alvorecer, no barulho eterno da cachoeira, no olhar da criança, na sabedoria do velho, na imensidão do mar, na força das palavras, no silêncio das Catedrais vazias, no incessante e árduo trabalho do homem, na Lua, no Sol, nas estrelas e constelações.
Algo extremamente simples, apenas entender e decifrar uma palavra, formada por quatro letras, fazer dela um caminho para tudo, devendo ser cultivada e regada todos os dias, em caligrafia de corações e letras de sonhos, gravadas em toda a existência, como uma choupana escondida na mata com seus jardins, envolta pela fumaça que salta da chaminé.