Edwaldo Arantes *
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Em uma escadaria com degraus de solidariedade em um hotel na Rua São Sebastião, vivi momentos de dor, mas repletos de carinho e dedicação.
Naquele estabelecimento, início da década de 1970, em plena déspota e sanguinária ditadura militar, fomos acolhidos pelo tio Luizinho e tia Lavínia, proprietários de dois tradicionais hotéis no Centro, o Santa Marta na São Sebastião e o “Grande Hotel”, na Álvares Cabral, cobertura do “Edifício Diederichsen”.
Em uma recente reunião no CIESP comandada pela competente batuta do querido amigo, brilhante e talentoso jornalista, André Luiz de Rezende Araújo, recebi a triste notícia sobre uma grave enfermidade acometida pelo seu pai.
André é filho de Élcio Araújo e Carmen Rezende, “Carminha”, ícone da cultura em nossa cidade.
Seu pai foi um famoso goleiro do Botafogo Futebol Clube de Ribeirão Preto, pelas atuações memoráveis foi comprado pelo Clube de Regatas “Vasco da Gama”, onde continuou a brilhar e foi campeão carioca.
Na ocasião, fiz questão de narrar os fatos que deram origem ao artigo de hoje, ao jornal, “Tribuna Ribeirão”.
Havia sofrido uma duríssima e complicada Intervenção cirúrgica, retirada de um tumor no fêmur, que causou sofrimento e preocupação a todos.
Lembro-me emocionado, deixando o Hospital da Beneficência Portuguesa, proibido de caminhar, o Elcio subiu a íngreme e longa escada comigo às costas, gratidão eterna.
Viemos a Ribeirão Preto em um veículo, Karmann Ghia, TC, de propriedade de um amigo da família, seguindo a frente meu primo, Gilson Geraldo Borges, no banco de trás mamãe e o Ewaldo, comigo deitado em uma espécie de maleiro interno.
Os dois tinham que retornar juntamente com meu irmão, que escondeu-se e ninguém conseguia achar, ficando comigo.
Após a longa cirurgia e dez dias internado, fomos acomodados junto ao hotel para minha recuperação.
Fui recebido com dedicação e carinho também pelos funcionários, nunca deixei de lembrar e agradecer o Gaspar, permaneci cerca de dois meses, tendo sempre presente meu irmão e fiel escudeiro.
Uma lembrança que permaneceu anos à boca, Tia Lavínia possuía uma receita que jamais esqueci, o gosto era pior que a “Emulsão Scott” e o Óleo-de-Rícino, terror das crianças à época.
Uma “poção” feita com carne moída, batida com um chá, uma série de ervas e condimentos, de nome “Bifeti”.
O segredo guardado a sete chaves, superior ao da Coca-Cola contribuiu muito para a minha recuperação, pois havia emagrecido sobremaneira.
Retornamos à nossa terra natal, São Sebastião do Paraíso em uma Perua Kombi gentilmente cedida pelo senhor “Evaristo”, tradicional motorista que fazia a rota Paraíso/Ribeirão, semanalmente.
Fiquei morando na casa dos meus tios, maestro Lalado e Inhá, minha prima, Nilza, médica, recém graduada, pela Universidade Federal de Minas Gerais, retirou férias, cuidando dia e noite com competência e carinho, ministrando uma quantidade infindável de injeções e medicamentos.
Vivi um verdadeiro rosário de atenções, prudências e esmeros, regados a dedicação, afagamento e delicadeza pelos tios, primos, amigos e a vizinhança, vejo a Nilma e Omar, “casadinhos de novo”, chegando sempre ao amanhecer e entardecer, protegendo, junto a todos.
Para não perder o ano letivo, Dona Nilce Godinho, emérita professora de matemática, ministrou pessoalmente os exames, realizados na mesa redonda, em uma varanda eterna, com canários, pintassilgos, azulões, coleirinhas, sabiás e curiós, entoando lindas melodias como afagos.
Chegando aos sessenta e cinco “São Pedros” na cacunda, subindo a escada da vida, chego ao último degrau, volto meu olhar, refazendo o início, vislumbro o menino determinado que nenhuma dor destruiu.
As lembranças são escadas imaginárias de saudades, degraus rumo ao cume da existência.
“Ingratidão é uma forma de fraqueza. Jamais conheci um homem de valor que fosse ingrato” – Johann Goethe.
* Agente cultural