Rodrigo Gasparini Franco *
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Em um mundo onde a comunicação é instantânea e a privacidade parece cada vez mais um conceito obsoleto, o termo em latim sub rosa – que significa “sob a rosa” e remete à ideia de segredo e confidencialidade – ganha uma nova relevância. A expressão, que tem suas raízes na Antiguidade, carrega um simbolismo profundo: a rosa, associada ao silêncio e à discrição, era usada para marcar pactos e conversas que deveriam permanecer ocultas. Hoje, em uma era marcada pela superexposição e pela vigilância digital, o que significa guardar um segredo? E, mais importante, ainda há espaço para o sigilo no mundo contemporâneo?
A ideia de sub rosa parece quase anacrônica em tempos de redes sociais, onde a vida privada é frequentemente transformada em espetáculo público. Compartilhamos nossos pensamentos, rotinas e até nossas vulnerabilidades em plataformas que lucram com a exposição. O segredo, que outrora era um elemento essencial das relações humanas, tornou-se algo raro, quase subversivo. Guardar algo apenas para si ou para um círculo restrito de confiança é, paradoxalmente, um ato de resistência em um mundo que valoriza a transparência absoluta.
No entanto, a necessidade de confidencialidade nunca foi tão urgente. Em um cenário global onde dados pessoais são coletados, armazenados e vendidos em larga escala, a proteção de informações sensíveis tornou-se uma questão de sobrevivência. Governos, empresas e indivíduos enfrentam o desafio de equilibrar a comunicação aberta com a preservação de segredos estratégicos. A expressão sub rosa, nesse contexto, ganha um novo significado: não apenas como um símbolo de confidencialidade, mas como um lembrete da importância de proteger o que é essencial.
No campo das comunicações, o impacto da perda do sigilo é evidente. Escândalos de vazamento de informações, como os revelados por Edward Snowden ou os dados expostos pelo WikiLeaks, mostram como a quebra de confidencialidade pode abalar governos, corporações e até mesmo a confiança pública. Por outro lado, essas revelações também levantam questões éticas: até que ponto o segredo deve ser mantido? Quando a transparência se torna mais importante do que a confidencialidade? O dilema entre o que deve permanecer sub rosa e o que deve ser exposto é um dos grandes debates do nosso tempo.
A tecnologia, que deveria facilitar a comunicação, também trouxe novos desafios para o sigilo. Mensagens criptografadas, como as oferecidas por aplicativos como Signal e WhatsApp, são uma tentativa de resgatar a ideia de sub rosa em um ambiente digital. No entanto, mesmo essas ferramentas estão sob constante ameaça de vigilância e regulamentação. A luta pelo direito ao segredo, seja ele pessoal ou institucional, tornou-se uma batalha tecnológica e política. Em um mundo onde tudo pode ser rastreado, a ideia de algo verdadeiramente confidencial parece cada vez mais inalcançável.
Mas o segredo não é apenas uma questão de segurança; ele também é essencial para a intimidade e a confiança. Em relações pessoais, a capacidade de compartilhar algo “sob a rosa” – longe dos olhos e ouvidos do mundo – é o que fortalece laços e cria conexões profundas. A superexposição, por outro lado, pode diluir essas relações, transformando-as em interações superficiais. O segredo, nesse sentido, é um espaço de refúgio, um lugar onde a autenticidade pode florescer sem o peso do julgamento público.
A ideia de sub rosa nos convida a refletir sobre o valor do silêncio em um mundo barulhento. Em tempos de comunicação instantânea, onde tudo parece destinado a ser compartilhado, o segredo se torna um ato de preservação – não apenas de informações, mas também de identidades, relações e valores. Sob a rosa, encontramos um espaço para o que é verdadeiramente importante, longe do olhar incessante de um mundo que nunca para de observar. Talvez, mais do que nunca, seja hora de resgatar o poder do que permanece oculto. Afinal, nem tudo precisa ser dito; algumas coisas florescem melhor no silêncio.
* Advogado e consultor empresarial de Ribeirão Preto, mestre em Direito Internacional e Europeu pela Erasmus Universiteit (Holanda) e especialista em Direito Asiático pela Universidade Jiao Tong (Xangai)