O reverendo Amilton Gomes de Paula prestou um confuso depoimento nesta terça-feira, 3 de agosto, durante sete horas, à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da pandemia no Senado. Por mais de 20 vezes, ao ser questionado, disse não se lembrar de reuniões, mensagens e fotos registradas há poucos meses, no primeiro semestre deste ano.
Ao longo do depoimento, Amilton Gomes chorou, disse que a instituição comandada por ele tinha “interesse humanitário” na negociação de vacinas e confirmou que a entidade receberia doações, caso o governo federal fechasse negócio com a Davati Medical Supply para a compra de imunizantes.
Senadores classificaram o depoimento de “conversa fiada”, disseram que o reverendo tinha interesses financeiros, afirmaram que ele mentiu à CPI e o chamaram de “estelionatário”. Em vários momentos, os membros da comissão questionaram se o reverendo estava tentando proteger alguém no depoimento, mas Amilton Gomes não respondeu.
Amilton Gomes é fundador de uma entidade privada chamada Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários (Senah). O reverendo é considerado uma peça-chave na investigação da CPI, que tenta esclarecer como o governo brasileiro negociou a aquisição de imunizantes por meio de intermediários.
O reverendo participou de negociação para uma suposta venda de 400 milhões de doses da AstraZeneca, em um momento de escassez de doses de imunizantes em todo o mundo. Até agora, nenhum dos envolvidos provou ter acesso real às doses – o laboratório diz que não negocia com intermediários.
O reverendo e a entidade que fundou, a Senah, receberam aval do então diretor de Imunização do Ministério da Saúde Laurício Monteiro Cruz para negociar a vacina AstraZeneca em nome do governo com a empresa americana Davati Medical Supply.
À CPI, Amilton Gomes disse ter conhecido o cabo da Polícia Militar de Minas Gerais Luiz Paulo Dominghetti, que se dizia representante da Davati Medical Supply, no dia 16 de fevereiro. E que Dominghetti falou em 400 milhões de doses da vacina AstraZeneca “disponíveis para pronta-entrega”.
O reverendo afirmou ter solicitado uma reunião para tratar da oferta com representantes do Ministério da Saúde no dia 22 de fevereiro e ter sido atendido no mesmo dia por Laurício Monteiro. A agilidade chamou a atenção dos senadores.
“O senhor mandou um e-mail às 12 horas, apontou o horário de que a reunião teria que ser às 16h30, às 16h30 já foi recebido. Eu queria essa eficiência do serviço público para a Pfizer”, ironizou Randolfe Rodrigues (Rede-AP). “Nós enviamos o e-mail e fomos recebidos”, reiterou Amilton Gomes. Questionado sobre o motivo de tal “prestígio”, o reverendo não respondeu objetivamente.
“Eu creio que, pela urgência da demanda, da escassez, do que nós estávamos vivendo, nós fomos recebidos”, afirmou. Em outro momento, o reverendo disse ter conversado duas vezes com o dono da Davati, Herman Cardenas, e que o empresário garantiu a ele ter as vacinas.
Em entrevista ao Fantástico, entretanto, Herman Cardenas disse apenas que tinha uma “alocação”, uma espécie de reserva de vacinas, mas não especificou a origem dos imunizantes. O empresário também disse ter sido enganado por seus parceiros no Brasil.
Ainda durante o depoimento, o reverendo confirmou que a Senah receberia “doações” da Davati caso a venda de doses pela empresa norte-americana ao governo se concretizasse. Não explicitou, no entanto, que tipo de doação seria ou qual valor a Senah receberia, mas que havia um “interesse humanitário” da entidade. Na sequência, ele disse não ter participado de “nenhum acordo”.
Alessandro Vieira (Cidadania-SE) chamou a suposta motivação humanitária do reverendo de “conversa fiada”. O reverendo também foi questionado sobre mensagens que trocou com o policial militar Dominghetti, no dia 16 de março. Respondendo a Dominghetti, que queria atualizações a respeito de reuniões do reverendo, Amilton afirmou naquela data: “Ontem falei com quem manda! Tudo certo! Estão fazendo uma corrida compliance da informação da grande quantidade de vacinas!”.
Indagado sobre o episódio e sobre a quem se referia, Amilton Gomes, orientado por seu advogado, afirmou que a fala foi uma “bravata”. Presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), protestou: “Veja bem, pastor, tudo que o senhor fala a partir de agora, as pessoas vão olhar para o senhor e vão dizer: ‘Será que ele está com bravata ou está falando a verdade?’. Repense o seu depoimento, pastor”.
Reverendo chora
As repostas evasivas de Amilton Gomes de Paula irritaram alguns senadores. Ele foi acusado de mentir ao colegiado e até foi chamado de “estelionatário” durante a sessão. O reverendo, então, chorou perante a comissão e se disse arrependido de ter “estado nessa operação de vacinas”.
“Eu creio que o maior erro que fiz foi abrir as portas da minha casa aqui em Brasília. Eu abri a porta da minha casa num momento que eu estava enfrentando a perda de um ente querido da minha família. E eu queria vacina para o Brasil [chora]. Eu me sinto. Eu tenho culpa sim”.
“Eu hoje de madrugada, antes de vir pra cá, eu dobrei os meus joelhos, orei, e aí peço desculpa ao Brasil. E o que eu cometi não agradou, primeiramente, aos olhos de Deus. Mas eu estou aqui, para voltar e dizer […]. Foi um erro que, se eu pudesse voltar atrás, eu voltaria”, afirmou o reverendo.