André Luiz da Silva *
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Neste mês de agosto, a Amazônia registrou a queima de 2,5 milhões de hectares, resultando em uma alta concentração de gases poluentes que se espalhou até o Sul do Brasil, atingindo dez estados. Em São Paulo, vivenciamos uma onda de incêndios sem precedentes. Embora esse fenômeno ocorra anualmente, nunca alcançou tamanha magnitude em um período tão curto. Diante disso, militantes de direita acusaram membros do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, enquanto a esquerda responsabilizou o agronegócio. Muitas teorias circulam nas redes sociais, e a Polícia Federal já foi acionada para investigar, identificar e responsabilizar os autores.
O hábito de promover queimadas é antigo, começando desde aquele vizinho que queima folhas da calçada ou lixo em terrenos baldios, mesmo com a disponibilidade de coleta de resíduos na cidade, até grandes produtores agrícolasou exploradores de recursos minerais. Historicamente, a queimada era vista como um método rápido e econômico. No caso da colheita de cana-de-açúcar, esse procedimento aumentava a produtividade e eliminava animais que representavam riscos para os trabalhadores que faziam o corte manual. Contudo, com o avanço tecnológico e o reconhecimento das consequências para a saúde das populações próximas às plantações, surgiram tratados como o Protocolo Agroambiental de 2007 entre as usinas e o governo de São Paulo, incentivando a colheita da cana crua.
Ainda existe a prática da queima controlada, utilizada em áreas específicas e em situações planejadas, monitoradas e seguras, para evitar que se tornem incêndios florestais. Os órgãos ambientais e o Corpo de Bombeiros são frequentemente chamados para acompanhar e auxiliar no treinamento dessa prática legal.
As consequências das queimadas já estão sendo sentidas por quase toda a população. Além das perdas patrimoniais e do desequilíbrio ambiental com a destruição da fauna e flora, diversos problemas de saúde estão sendo registrados. A produção agrícola também será impactada nos próximos anos, afetando o fornecimento, abastecimento e os preços ao consumidor final.
Essa situação remete à Parábola do Beija-Flor, que, diante de um incêndio na floresta, fazia sua parte, inicialmente insignificante, mas que acabou inspirando e mobilizando todos os animais a combaterem a ameaça comum. Curiosamente, na mesma semana em que enfrentávamos esses incêndios, na Convenção Democrata para as eleições norte-americanas, três discursos destacaram o cuidado com os vizinhos. A apresentadora e jornalista Oprah Winfrey afirmou que, se a casa do vizinho estiver em chamas, devemos salvar todos sem questionar suas crenças. Tim Walz, candidato a vice-presidente, ressaltou que, embora os vizinhos possam pensar de forma diferente, devemos cuidar deles. O ex-presidente Bill Clinton pediu que não menosprezemos os vizinhos e que os tratemos com respeito. No dia seguinte, em seu belo discurso, a atual vice-presidente e candidata à presidência Kamala Harris prometeu: “Serei presidente de todos.”
Conveniente recordar, ainda, o apelo do Papa Francisco para a necessidade de uma “conversão ecológica” para cuidados com “nossa casa comum”, através de mudança de mentalidade e compromisso de trabalhar pela resiliência das pessoas e dos ecossistemas em que vivem.
Pessoas de diferentes correntes políticas, religiosas, ideológicas, econômicas, sociais ou existenciais podem e devem defender seus ideais, mas jamais devem esquecer que vivemos em sociedade, onde os impactos de ações individuais geralmente afetam a vida da maioria, quando não de todos. As agressões ao meio ambiente estão promovendo mudanças climáticas que já saíram do campo teórico e são sentidas diariamente.
O antagonismo orquestrado como estratégia para ascensão ou manutenção no poder vai além das intermináveis discussões em grupos ou redes sociais e tem causado inúmeras mortes e destruição. Que as autoridades competentes elucidem e responsabilizem os culpados pelas recentes queimadas, e que tenhamos mais beija-flores inspiradores e mais pessoas que cuidam de si mesmas e de seus vizinhos.
* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista