Tente não torcer o nariz ao ler o título. Antes, reflita acerca do questionamento. “Se tivesse que cobrar diretamente dos alunos pelos meus serviços prestados em sala de aula, qual seria o preço justo?”, “será que todos os alunos pagariam o mesmo preço?”, ou ainda, “todas as minhas aulas custariam o mesmo?”.
Em uma sociedade acostumada a debater o salário dos docentes, proponho aqui uma reflexão um tanto quanto maluca. Inverter a lógica. E se, ao final de cada aula, os alunos tivessem que pagar o valor que considera adequado ao momento que acabaram de vivenciar? Não, por favor, não questione maturidade, situação social ou a praticidade desse modelo. Não. Reflita apenas se, e tão somente se, ao final de cada aula ou do dia letivo, uma caixa ao lado da porta recebesse valores referentes ao seu desempenho na visão do alunos. Ou ainda: e se essa caixa recebesse valores proporcionais ao total realmente aprendido pelo aluno após a sua aula?
Eu sei. Nesse momento várias situações vivenciadas em toda sua experiência como professor ou professora estão passando pela sua cabeça, como aquele dia em que você falou para os alunos que não teria como terminar o assunto e que o faria na próxima aula e nunca o fez. Ou aquele outro momento em que um aluno tinha algo para dizer e você, por questão de prazo e tempo, não o chamou. Ou ainda aquela aula em que você “soltou o verbo” por quase 50 minutos, entrou num estado de “transe pedagógico profundo” (quando saímos do corpo e nos vemos dando aula), os alunos riram, cantaram e se emocionaram, mas no momento da avaliação… pois é, desastre.
Consegui atrair sua atenção? Ótimo. Pense a respeito. Espalhe novos métodos. Só não fique inerte a esse movimento inevitável: colocar o aluno no centro do processo de ensino-aprendizagem.
POR ISSO PLANEJAR, PLANEJAR E PLANEJAR…
Em 2006, no início de minha careira como professor de Geografia, lecionava em um curso pré vestibular noturno. O ano seria marcado pela lembrança dos ataques às Torres Gêmeas e ao Pentágono que completariam 5 anos em setembro de 2006. Eu lecionava a frente 2 de Geografia, que em certo ponto do planejamento previsto pelo curso, desembocaria no assunto “Geopolítica dos EUA”. Eu teria exatamente 3 aulas para falar de todos os aspectos da complexa formação do território dos EUA, planos de domínio e expansão de sua área de influência, a Guerra Fria e, ao final, o pós 11 de setembro de 2001. Cheguei 10 minutos mais cedo a uma sala de aula ainda vazia (seria “dono” das três primeiras aulas antes do intervalo, ou seja, duas horas e meia de Geografia), desenhei o mapa dos EUA no quadro negro (eu adorava demonstrar essa habilidade absolutamente inútil atualmente) e, enquanto chegavam os primeiros dos cerca de 110 alunos, comecei a conversar sobre teorias conspiratórias sobre o 11 de setembro de 2001 (seriam as “fakenews” em seu estado inicial). Os alunos começaram a se envolver na conversa, comecei a falar, falar e falar, entrei em um estado de “transe pedagógico profundo”, escrevi nomes, datas e informações de forma desordenada no quadro e….acabou a aula. Mais de duas horas se passaram. Três aulas. As aulas que eu deveria ter utilizado para falar de TODOS os aspectos da complicada Geopolítica dos EUA. Os alunos foram para o intervalo em estado de êxtase, admirados com minha capacidade de articular informações, utilizar elementos de um humor sarcástico e, principalmente, de despejar toneladas de conteúdo (“verborragia” pura). INÚTIL! Absolutamente inútil.
Entendo que não lecionamos para o coordenador pedagógico ou supervisor, ou seja, quando necessário não só podemos como devemos nos desviar do planejado desde que a demanda provenha dos alunos e não do seu ego e que seja possível retomar a linha planejada nas próximas aulas. Muitas vezes a contribuição dos alunos é tão maravilhosamente surpreendente e genial que não é possível simplesmente cortar o raciocínio ou sugestão e seguir friamente com o planejamento. Repito: nossa aula não é para uma folha de papel.
Porém seguir o planejamento com desvios ocasionais e/ou necessários é o melhor caminho para que o processo de aprendizagem do ciclo (ano letivo) se complete sem atropelos e sem lacunas.