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Paulo Camargo morre aos 78 anos

A arte nacional perdeu um de seus grandes mestres, um gê­nio injustiçado que, assim como Candido Portinari (1903-1962), produzia suas próprias tintas e levava para a tela a indignação com a desigualdade social e sua visão única do ser humano. O artista plástico Paulo Moreira de Camargo, o Paulinho Camargo, morreu no domingo, 5 de feve­reiro, em Ribeirão Preto.

Paulo Camargo ao lado da gravura do homem enforcado: “Esse eu fiz na morte do Wladmir Herzog” (1937-1975 – jornalista vitimado pela ditadura militar) – JF PIMENTA-ARQUIVO

Velório
A causa da morte não foi divulgada. O corpo de Paulo Camargo foi velado nesta se­gunda-feira (6), no Memorial Campos Elíseos. Autodidata, ele foi influenciado por Vincent van Gogh (1853-1890), Eugène­-Henri-Paul Gaughin (1848- 1903) e Henri Marie Raymond de Toulouse-Lautrec (1863- 1901). Adotou como marca a reprodução de elementos da po­breza e das injustiças sociais.

Suas pinceladas davam for­ma e cor aos humanos sempre às voltas com dramas interiores. Paulo Camargo já produziu mais de três mil obras, sempre com forte cunho social, que estão es­palhadas pelo Brasil e o exterior. Natural de Anhembi, no interior paulista, mas ribeirão-pretano de coração, tinha 78 anos.

Ateliê
Em novembro de 2020, Paulinho Camargo recebeu os repórteres Fabiano Ribeiro e JF Pimenta, do Tribuna, em seu apartamento no bairro Ribei­rânia. Simples, daquelas pes­soas desprovidas de ganância, transformou o espaço em um estúdio, um ateliê, um local de criação. Um pequeno compu­tador, vários discos e livros, um colchão e alguns objetos de uso diário. Isso, proporcionalmente dava uns 5% do espaço.

A tela de Wladmir Herzog e outras tantas dele têm algo em comum: retratam e expõem problemas sociais, mostram o lado político de Paulo Camargo – JF PIMENTA-ARQUIVO

Herzog
O restante era ocupado por telas, quadros, gravuras, tintas. Na época, pintava a gravura de um homem enforcado. “Esse eu fiz na morte do Wladmir Herzog (1937-1975 – jornalista vitimado pela ditadura militar). O filho dele viu e queria levar embora. Não dei. Não vendo. Ele tem que ficar em um museu para que todos possam conhe­cer a história do Herzog e da di­tadura”, dizia Camargo.

Paulo Camargo não batizava as obras. “Não dou nomes. As pessoas têm que ver e sentir. Mas esse é do Herzog”, riu. “Cada quadro, cada obra tem uma his­tória”. “É acho que dá para fazer um museu com os trabalhos que tenho aqui”, dizia. Mostrou um pacote que havia sido encami­nhado por ele ao Museu e Fun­dação Calouste Gulbenkian, em Portugal, um dos mais famosos da Europa.

Segundo Camargo, o paco­te continha um pouco dos seus trabalhos e um projeto para fa­zer um painel que retratava a história do mundo. O projeto estava pronto. “Eu só queria o investimento para fazer a obra e um quarto para dormir, mas isso nem chegou lá. Eles abriram na alfândega e me devolveram. Um desrespeito”, disse mostrando o pacote adulterado.

Negócios
“Eu sobrevivo com as telas comerciais que faço (referindo­-se à que tinha visto na entrada do apartamento). Mas é só para pagar conta, comer e comprar tinta. Uso o dinheiro para com­prar produtos e produzir outras telas não comerciais”, revelou. Outra preocupação era com o futuro da vasta obra em seu apartamento. A moradia foi ce­dida a ele, mas o proprietário está em litígio com a financiado­ra e ele corria o risco de ser des­pejado do imóvel na época.

“Eu não ligo, me viro. Mas e essas obras para onde vão?”. “Eles falam que o artista fica re­conhecido quando morre, mas eu só vou morrer quando eu colocar essas obras em um gran­de museu. Quando terminar as outras telas”, finaliza. Paulo Ca­margo disse que nasceu para ser pintor. Que nunca pensou em fazer outra coisa na vida.

“Nunca me preocupei com as disciplinas na escola, como matemática. Eu não queria es­tudar, sabia que seria pintor, por que me interessaria por outras coisas. Me interessava por pin­turas e obras de arte. Um dia na escola a professora perguntou o que as crianças queriam ser. Eu tinha oito anos e já sabia. Eu ia ser pintor. Falei com certeza para ela”.

Estojo
O artista ainda tinha o pri­meiro estojo que ganhou com tintas, aos onze anos. “Foi com isso que produzi minhas pri­meiras telas. Ainda tem tinta, eu usava pouco para durar”, dizia, mostrando o presente de infân­cia. As principais telas de Paulo Camargo são produzidas dentro de uma técnica descoberta por ele, por acaso: tinta e serragem.

A mistura proporciona te­las com texturas diferentes e grande resistência. “Um dia eu estava pintando e caiu tinta em um pouco de serragem no chão. Sem querer foi parar na tela e eu percebi um efeito diferente. Co­mecei a trabalhar e desenvolvi”, conta. “Foram oito anos mais ou menos fazendo experiência até chegar a um ponto bom”.

Paulo Camargo era frequentador assíduo do Mercado Municipal de Ribeirão Preto, o Mercadão Central, onde gostava de tomar café – MAX GALLÃO MESQUITA

A tela de Wladmir Herzog e outras tantas dele têm algo em comum: retratam e expõem problemas sociais. Elas mostram o lado político de Paulo Camar­go. Ele conta dois episódios que mostram bem esse posiciona­mento. Um deles foi trazer a Ribeirão Preto o então líder co­munista Luís Carlos Prestes.

Comunista
“Quando o Prestes desem­barcou no Brasil eu fui lá buscá­-lo. Eu o trouxe a Ribeirão Pre­to”, conta. “Depois disso fui visto com outros olhares. Me despe­jaram de onde eu morava. Fui morar por um tempo no mato e depois na rua”, conta sem entrar em detalhes, mas deixando a en­tender que sofreu algum tipo de perseguição.

Camargo fez um trabalho que foi utilizado pela People’s Mujahedin of Iran, uma orga­nização de oposição ao governo do Irã existente antes da Revolu­ção Iraniana de 1979 (existe até hoje). Em 1976, mais de 40 mil pôsteres com uma ilustração do artista foram vendidos na Europa pela organização com o objetivo de angariar fundos para ajudar pessoas feridas na guerra.

“Eles queriam me levar para a Europa, para o Mujahedin. Eu não quis ir não. Entre ficar na guerra lá ou aqui, preferi ficar aqui mesmo”, disse na entrevista de novembro de 2020. Frequen­tador assíduo do Mercado Mu­nicipal de Ribeirão Preto, o Mer­cadão Central, e apaixonado pela cidade que escolheu para morar, deixa um rico legado e muita saudade.

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