A arte nacional perdeu um de seus grandes mestres, um gênio injustiçado que, assim como Candido Portinari (1903-1962), produzia suas próprias tintas e levava para a tela a indignação com a desigualdade social e sua visão única do ser humano. O artista plástico Paulo Moreira de Camargo, o Paulinho Camargo, morreu no domingo, 5 de fevereiro, em Ribeirão Preto.

Velório
A causa da morte não foi divulgada. O corpo de Paulo Camargo foi velado nesta segunda-feira (6), no Memorial Campos Elíseos. Autodidata, ele foi influenciado por Vincent van Gogh (1853-1890), Eugène-Henri-Paul Gaughin (1848- 1903) e Henri Marie Raymond de Toulouse-Lautrec (1863- 1901). Adotou como marca a reprodução de elementos da pobreza e das injustiças sociais.
Suas pinceladas davam forma e cor aos humanos sempre às voltas com dramas interiores. Paulo Camargo já produziu mais de três mil obras, sempre com forte cunho social, que estão espalhadas pelo Brasil e o exterior. Natural de Anhembi, no interior paulista, mas ribeirão-pretano de coração, tinha 78 anos.
Ateliê
Em novembro de 2020, Paulinho Camargo recebeu os repórteres Fabiano Ribeiro e JF Pimenta, do Tribuna, em seu apartamento no bairro Ribeirânia. Simples, daquelas pessoas desprovidas de ganância, transformou o espaço em um estúdio, um ateliê, um local de criação. Um pequeno computador, vários discos e livros, um colchão e alguns objetos de uso diário. Isso, proporcionalmente dava uns 5% do espaço.

Herzog
O restante era ocupado por telas, quadros, gravuras, tintas. Na época, pintava a gravura de um homem enforcado. “Esse eu fiz na morte do Wladmir Herzog (1937-1975 – jornalista vitimado pela ditadura militar). O filho dele viu e queria levar embora. Não dei. Não vendo. Ele tem que ficar em um museu para que todos possam conhecer a história do Herzog e da ditadura”, dizia Camargo.
Paulo Camargo não batizava as obras. “Não dou nomes. As pessoas têm que ver e sentir. Mas esse é do Herzog”, riu. “Cada quadro, cada obra tem uma história”. “É acho que dá para fazer um museu com os trabalhos que tenho aqui”, dizia. Mostrou um pacote que havia sido encaminhado por ele ao Museu e Fundação Calouste Gulbenkian, em Portugal, um dos mais famosos da Europa.
Segundo Camargo, o pacote continha um pouco dos seus trabalhos e um projeto para fazer um painel que retratava a história do mundo. O projeto estava pronto. “Eu só queria o investimento para fazer a obra e um quarto para dormir, mas isso nem chegou lá. Eles abriram na alfândega e me devolveram. Um desrespeito”, disse mostrando o pacote adulterado.
Negócios
“Eu sobrevivo com as telas comerciais que faço (referindo-se à que tinha visto na entrada do apartamento). Mas é só para pagar conta, comer e comprar tinta. Uso o dinheiro para comprar produtos e produzir outras telas não comerciais”, revelou. Outra preocupação era com o futuro da vasta obra em seu apartamento. A moradia foi cedida a ele, mas o proprietário está em litígio com a financiadora e ele corria o risco de ser despejado do imóvel na época.
“Eu não ligo, me viro. Mas e essas obras para onde vão?”. “Eles falam que o artista fica reconhecido quando morre, mas eu só vou morrer quando eu colocar essas obras em um grande museu. Quando terminar as outras telas”, finaliza. Paulo Camargo disse que nasceu para ser pintor. Que nunca pensou em fazer outra coisa na vida.
“Nunca me preocupei com as disciplinas na escola, como matemática. Eu não queria estudar, sabia que seria pintor, por que me interessaria por outras coisas. Me interessava por pinturas e obras de arte. Um dia na escola a professora perguntou o que as crianças queriam ser. Eu tinha oito anos e já sabia. Eu ia ser pintor. Falei com certeza para ela”.
Estojo
O artista ainda tinha o primeiro estojo que ganhou com tintas, aos onze anos. “Foi com isso que produzi minhas primeiras telas. Ainda tem tinta, eu usava pouco para durar”, dizia, mostrando o presente de infância. As principais telas de Paulo Camargo são produzidas dentro de uma técnica descoberta por ele, por acaso: tinta e serragem.
A mistura proporciona telas com texturas diferentes e grande resistência. “Um dia eu estava pintando e caiu tinta em um pouco de serragem no chão. Sem querer foi parar na tela e eu percebi um efeito diferente. Comecei a trabalhar e desenvolvi”, conta. “Foram oito anos mais ou menos fazendo experiência até chegar a um ponto bom”.

A tela de Wladmir Herzog e outras tantas dele têm algo em comum: retratam e expõem problemas sociais. Elas mostram o lado político de Paulo Camargo. Ele conta dois episódios que mostram bem esse posicionamento. Um deles foi trazer a Ribeirão Preto o então líder comunista Luís Carlos Prestes.
Comunista
“Quando o Prestes desembarcou no Brasil eu fui lá buscá-lo. Eu o trouxe a Ribeirão Preto”, conta. “Depois disso fui visto com outros olhares. Me despejaram de onde eu morava. Fui morar por um tempo no mato e depois na rua”, conta sem entrar em detalhes, mas deixando a entender que sofreu algum tipo de perseguição.
Camargo fez um trabalho que foi utilizado pela People’s Mujahedin of Iran, uma organização de oposição ao governo do Irã existente antes da Revolução Iraniana de 1979 (existe até hoje). Em 1976, mais de 40 mil pôsteres com uma ilustração do artista foram vendidos na Europa pela organização com o objetivo de angariar fundos para ajudar pessoas feridas na guerra.
“Eles queriam me levar para a Europa, para o Mujahedin. Eu não quis ir não. Entre ficar na guerra lá ou aqui, preferi ficar aqui mesmo”, disse na entrevista de novembro de 2020. Frequentador assíduo do Mercado Municipal de Ribeirão Preto, o Mercadão Central, e apaixonado pela cidade que escolheu para morar, deixa um rico legado e muita saudade.