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O Uruguai e sua Literatura (3): Delmira Agustini, Florencio Sánchez, Horacio Quiroga

De família italiana, Delmira Agustini (1866-1914) já compunha versos aos dez anos de idade. Tendo estudado francês, música e pintura, focou, sem vulgaridade, a sexualidade femi­nina, com suas fantasias, simbolismos, exotismos, sensulidade e erotismos, em um contexto e época dominado pelos homens. Tendo Eros, deus do amor, como protagonista de muitas de suas obras, Agustini, com sua terceira obra “Los cálices vacíos” (1913), ingressou no movimento de vanguarda modernista uruguaio. Em 1913, Agustini casou-se com Enrique Job Reyes, que não pertencia ao grupo de intelectuais da época. Tempos depois, inúmeras desavenças conjugais levaram-na a abandoná-lo e dele se divorciar. Porém, não assimilando o fim do relacionamen­to, Reyes veio a assassiná-la pouco tempo depois, suicidando-se a seguir. Em 1924, uma edição de suas “Poesias Completas” foi publicada. Em Montevidéu, sua cida­de natal, um Memorial foi dedicado a sua pessoa e a todas as vítimas de violência de gênero do mundo. Estudiosos da obra de Agustini afirmam que “Los cálices vacíos”, utilizando motivos vinculados ao erotismo de forma diferenciada dos poetas homens canônicos da época, permitiram-lhe construir uma voz poética feminina distinta, na qual as significativas variações poéticas, quando comparadas a outras obras líricas da estética modernista hispano-americana, angariaram-lhe sucesso póstumo significativo no decorrer do século XX. Um exemplo? O poema intitulado “Íntima”, da obra supracitada: “Imagina mi amor, amor que quiere vida imposible, vida sobrehumana, tú que sabes si pesan, si consumen alma y sueños de Olimpo en carne humana”. Para os analistas de sua obra, este poema mostra a busca da carne humana por uma vida além da vida humana, ou seja, uma busca por outra realidade, de grandes sonhos.

Florencio Sánchez (1875-1910), dramaturgo e jornalista uruguaio, desenvolveu em Montevidéu, Buenos Aires e Rosário intenso trabalho jornalístico (La Voz del Pueblo, El Siglo, La Razón, La Protesta, Germinal), bem como, uma produção teatral que o fez ser considerado uma das principais figuras do teatro rioplatense. Militante anarquista, e apaixonado observador do cotidiano, teve como temas preferidos para suas obras teatrais a vida proletária, a família, o cortiço e os imigrantes, buscando representa-los como tipos sociais de ambas as margens do Rio da Prata. Seu trabalho, focando as misérias e as esperanças do homem em sua vida cotidiana, angariou-lhe o desencanto pelas posturas polí­ticas tradicionais, além de diversos impedimentos de encenações de suas obras. A despeito disso, patrocinado pelo governo de seu país, trabalhou para a representação de sua obra na Europa, em diversas cidades italianas e francesas, vindo a falecer de tuberculose nesse período. De acordo com estudiosos, seu principal mérito consistiu em apresentar as estruturas da dramaturgia moderna ao cenário fluvial. Isso fala de sua sensibilidade para a percepção do teatro europeu de sua época e de sua capacidade de adaptá-lo às regras da cena local. De onde Sánchez obteve esse conhecimento? Das suas leituras, da sua prática como espectador, da sua dramaturgia e do seu trabalho como tradutor, conhecimentos técnicos estimulados pela paixão pela cena.

Horacio Quiroga (1878-1937), escritor uruguaio famoso por seus contos, neles focou eventos fantásticos e macabros, tal qual o fez Edgar Allan Poe. Entretanto, a esses temas somou-se outras focalizações, agora relacionadas à selva, em especial ao enquadramento ficcional da região de Misiones, na Argentina, local, este, em que o autor passou parte da vida. Sua existência atribulada contou com a morte do pai quando ele tinha 4 anos, bem como, com o suicídio do padrasto; com a morte de seu melhor amigo, com um tiro acidental dis­parado por ele, e, como se não bastasse, com o suicídio da esposa. Sua obra mais famosa? “Cuentos de amor, de locura y de muerte (1917), obra em que é possível encontrar seu mais famoso conto A Galinha Degolada. Um trecho? “Às dez horas decidiram que sairiam depois de almoçar. Como não tinham muito tempo, ordenaram à empregada que matasse uma galinha. O dia radiante tinha tirado os idiotas de seu banco. De modo que enquanto a empregada degolava o animal na cozinha, extraindo seu sangue com parcimônia (Berta tinha aprendido com sua mãe este método para conservar a carne fresca), sentiu algo como uma respiração atrás dela. Virou-se, e viu os quatro idiotas, com os ombros colados uns aos outros, olhando estupefatos a operação. Vermelho… vermelho… Senhora! Os meninos estão aqui, na cozinha. Berta chegou; queria que jamais tivessem pisado ali. Nem nes­sas horas de perdão pleno, de esquecimento e felicidade reconquistada, podia evitar essa horrível visão! Porque, naturalmente, quanto mais intensos eram os momentos de amor com seu marido e filha, mais irritado ficava seu humor com os monstros. Que saiam, Maria! Tire-os daqui! Tire-os daqui agora, eu disse!(…) Depois de almoçar, todos saíram. A empregada foi a Buenos Aires e o casal foi passear pelos sítios. Voltaram quando o sol se pôs; mas Berta quis cumprimentar suas vizinhas da frente por um momento. Sua filha se escapou para sua casa. Entretanto, os idiotas não haviam se movido do banco o dia todo. O sol já havia transposto o muro, começava a desaparecer, e eles continuavam olhando os tijolos, mais inertes do que nunca”. Em 1937, após ter sido diagnosticado com câncer, Quiroga cometeu suicídio, ingerindo uma dose letal de cianeto.

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