Sérgio Roxo da Fonseca *
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Taís Costa Roxo da Fonseca **
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Eis que saiu o semeador a semear. Com as palavras extraídas da Bíblia, Vieira iniciou o seu mais famoso sermão. Em latim: “ecce exiit qui seminat seminare”. Mas o autor acrescentou uma inversão. Há semeadores que saem a semear e há semeadores que semeiam sem sair.
Afirma-se que a expressão por ele encontrada pretendia transmitir duas ideias, aparentemente divergentes, com um comportamento semelhante. Todos dois semeadores semeiam a palavra de Deus. Uns saem a semear, enquanto outros semeiam sem sair.
O primeiro semeador sai a semear pelo mundo, por exemplo, pelas florestas do Maranhão, lançando a semente pelos muitos índios e pelos pouquíssimos brancos que habitavam aquele lado do mundo. Vieira andou semeando pelo Brasil. Os estudiosos indagam onde e como ele andou encontrando pessoas capazes de entender naquele tempo seus longos e caprichados sermões. Talvez porque não houvesse TV.
O segundo semeador, naquela época, permanecia em Lisboa, frequentando a corte lusitana, residindo nos palácios que então também eram conhecidos como paços imperiais.
Na época em que pronunciou o seu famoso sermão, Vieira estava inconsolado com as ordens que o afastavam dos paços, empurrando-o para os longos caminhos encontrados nas terras brasileiras e incultas. Ou em outras palavras, como diplomata que era, não conseguia compreender a exigência que lhe impunha pregar pelo nordeste do Brasil. Com certeza, a sua crítica somente poderia ser percebida pelos seus mais preparados ouvintes. Vale a pena voltar a suas palavras para ouvir melhor a sua insurgência.
Eis que o semeador saiu a semear. Há semeadores que saem a semear. Há semeadores que semeiam sem sair.
Após a longa caminhada exigida pela semeadura todos dois semeadores serão recompensados. O semeador que sai a semear receberá pelos passos dados. O semeador que semeia sem sair receberá pelos paços visitados. Extrai-se das palavras desse grande diplomada e extraordinário sacerdote que a realidade pouco mudou de sua época até nossos dias.
Extrai-se da leitura de sua vasta obra que Vieira conviveu com a sua saga que o levou aparentemente a viver tanto em Portugal quanto no Brasil, seja saindo a semear como semeando sem sair.
O seu texto em que chama a atenção para que proteja a sua mãe Maria Santíssima contra possíveis ataques de seus inimigos configura o dever daquele que se responsabiliza por semear sem sair.
Inversamente, quando prega o dever de expandir suas visões, com o caráter universal do cristianismo, lança para todos os ângulos o dever de sair para semear.
* Advogado, professor livre docente aposentado da Unesp, doutor, procurador de Justiça aposentado, e membro da Academia Ribeirãopretana de Letras
** Advogada