Tribuna Ribeirão
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O fim dos fósseis – parte 1 

Luiz Paulo Tupynambá * 
www.tupyweb.com 
 
O petróleo é nosso, é nosso / pro progresso do Brasil ele é fundamental / O petróleo é nosso, é nosso / descobrimos o pré-sal…” Marchinha de Carnaval “O petróleo é nosso”, de Jr. Nobre 
 
Passaram-se pouco mais de dez anos desde a euforia petista com o pré-sal. Hoje a exploração de águas profundas é uma realidade e um orgulho para a engenharia brasileira, uma tecnologia que poucos países detêm. Petistas e outros foram e voltaram, vieram, fizeram e desfizeram. Mas, na vida real, ali no bico da bomba do posto que abastece o carro do Moacyr e a van de aluguel do “Seo” Romeu e o gás do fogão da marmitaria caseira” da dona Julieta, parece que nunca o tal petróleo do pré-sal chegou.  
 
Todos sentem no bolso o alto custo cobrado por litro de combustível ou quilo de gás de  cozinha. Parece que só foi bom para o governo federal e para os acionistas da Petrobras. Todo ano abocanham uma dinheirama de dividendos gerados pela empresa. A parte do progresso da marchinha, ficou com quem tem mais dinheiro e com aqueles que fazem parte da burocracia nacional. Para nós, resta pagar impostos e fazer os preços caberem num orçamento mais apertado que lata de sardinha zero-quilômetro. 
 
Aquilo que parecia, na primeira hora, ser a panaceia nacional, pode virar um mico do tamanho das nossas soberanas duzentas milhas marítimas. Por que digo isso? Justamente porque as resoluções da COP 28, realizada em Dubai no ano passado, criaram marcos e objetivos para a substituição gradual da matriz energética (principalmente no transporte de pessoas e bens) baseada em combustíveis fósseis. Um dos defensores desse marco foi o presidente da cúpula, que também é presidente da estatal petrolífera dos Emirados Árabes Unidos. Os poderosos príncipes e emires árabes sabem que seu estoque de petróleo é limitado e que hoje, com a descoberta de campos a serem explorados em todo o planeta, colocando outros atores em cena na economia do petróleo, sua influência e poder diminuirão rapidamente. Porém, com o dinheiro que acumularam durante o século XX e o início do século XXI, eles tem capital para dominar as matrizes energéticas do futuro. E vão tentar fazer isso. 
 
A pressão para a modificação dos modelos energéticos, fatores econômicos à parte, passa também pela aceitação e compreensão, pelos donos do capital mundial, de que a mudança climática é real e já começou. Terraplanistas e negacionistas podem espernear e berrar à vontade nas mídias sociais, mas aqueles que têm o poder real, os donos da l’argent”, não dão a mínima para esse conversê troglodita, pois vivem num mundo redondo que dá voltas em torno do sol e é nele que faturam ou perdem a sua amada bufunfa”. A mudança acontecerá e a corrida para ser um dos protagonistas do processo já está acontecendo. É mais ou menos como a disputa, que aconteceu no início do século XX, pela adoção de um modelo de energia elétrica entre Westinghouse (com Tesla) e Thomas Edison. 
 
Para compreender essa corrida, podemos dividir o uso da energia de combustíveis fósseis em duas áreas: a do transporte pesado, do uso industrial e da calefação. Ou seja, o que é usado para transportar bens e pessoas, como aviões, navios e trens; para o funcionamento de caldeiras e outros maquinários geradores de vapor ou de transformação de materiais, como siderúrgicas; e na calefação, onde se usa derivados de petróleo para o aquecimento de ambientes comerciais, industriais, escolares, hospitalares e moradias, nos países de invernos mais rigorosos. Na segunda parte temos o uso no transporte de pessoas por carros e ônibus, metrôs, logística de médio e pequeno alcance, etc. 
 
Dois candidatos se destacam para uma primeira fase da mudança das matrizes energéticas para esses dois usos: o primeiro é o hidrogênio, que já tem seu uso comercial comprovado como locomotor de automóveis, por exemplo. Sua produção, que parecia ser o grande obstáculo, começa a ser simplificada com a descoberta de grandes jazidas na Europa, África e Ásia. Jazidas porque esse hidrogênio está em bolsões subterrâneos e sua extração e transporte é muito parecida com o que já é feito com gás natural. Até gasodutos e navios de transporte poderiam ser adaptados, com custo baixo. Para se ter uma ideia, só uma jazida recém-descoberta na região dos Pireneus franceses é estimada em 250 milhões de toneladas de hidrogênio, o suficiente para cobrir a atual procura global por mais de dois anos. Mas as estimativas dão conta que em pouco tempo teremos hidrogênio suficiente para abastecer a humanidade por centenas de anos. E não esqueça das jazidas de Hélio-3 na Lua. 
 
O hidrogênio é muito mais eficiente, em termos de quantidade usada / total de energia conseguida do que qualquer combustível fóssil. E, o que é mais importante, não gera gases de efeito estufa ou poluentes ambientais. Por enquanto, a maior parte das prospecções estão sendo feitas por “start-ups”, com os “tubarões” do negócio energético nadando em volta para ver o que acontece. Mas, gente como Bill Gates, por exemplo, parece enxergar futuro no negócio, pois colocou US$ 91 milhões na “start-up” norte-americana Koloma, que pretende explorar reservas dehidrogênio branco nos EUA. 
 
Semana que vem falarei mais sobre o hidrogênio que vale mais de acordo com sua cor e da fusão nuclear, outro ovo de Colombo da mudança energética. Até lá. 
 
* Jornalista e fotógrafo de rua 

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