Rosemary Conceição dos Santos*
Jorge Enrique Adoum (1926-2009), escritor, poeta, político e diplomata equatoriano, foi um dos maiores expoentes da poesia latino-americana, conquistando prêmios de prestígio, tal como o primeiro Prêmio Casa de las Américas de Cuba, em 1960, a mais importante homenagem das letras latino-americanas. Embora aclamado pelo ganhador do Prêmio Nobel Pablo Neruda como o melhor poeta de sua geração na América Latina, a obra de Adoum é desconhecida no mundo de língua inglesa. Nascido em Ambato, de ascendência libanesa, seu pai fez traduções do árabe para o espanhol, pintou, esculpiu, compôs música, praticou medicina natural e escreveu mais de 40 volumes sobre ciências ocultas e maçonaria, publicados sob o pseudônimo de “Mago Jefa”. Ele também tinha um consultório particular de hipnotismo, magnetismo e sugestão, tendo feito inúmeras curas consideradas milagrosas em sua época, tendo viajado, a partir de 1945, para o Chile, Argentina e Brasil, onde veio a falecer, na cidade do Rio de Janeiro, em 1958, aos 61 anos.
Na adolescência, Adoum tentou ingressar no Partido Comunista do Equador, mas foi recusado por ser muito jovem. Crente da ideologia comunista, o nome “Marx” no título de seu livro mais famoso, “Entre Marx e uma Mulher Nua”, refere-se a Karl Marx, o autor do Manifesto Comunista .Em 1948, Adoum contraiu matrimônio, teve 2 filhas e divorciou-se pouco tempo depois. Tornando-se secretário pessoal de Pablo Neruda durante quase dois anos, no Chile, viajou para o Egipto, Índia, Japão e Israel, com uma bolsa do Grande Projecto da UNESCO sobre a Apreciação Mútua dos Valores Culturais Orientais e Ocidentais, em 1963. Incapaz de retornar ao Equador por causa da ditadura militar de 1964-1966, o autor trabalhou na República Popular da China de 1964 a 1986, seguindo para Genebra e Paris, dali só retornando à sua terra natal em 1987.
Casando-se na Suíça, em 1977, sua nova esposa era atriz na versão francesa de sua nova peça “El sol bajo las patas de los caballos”, tendo traduzido o trabalho de Adoum para o francês e vindo a falecer em 2011. Esta mesma peça não tardou vir a ser traduzida para 6 idiomas. Na sequência, uma seleção de seus poemas foi traduzida para o inglês, sob o título “Disinterred Love” (2012) por Katherine M. Hedeen e Victor Rodriguez Nunez. Em 1976, seu romance “Entre Marx y Una Mujer Desnuda” recebeu o Prêmio Xavier Villaurrutia do México, primeira vez que o prêmio foi concedido a um estrangeiro. Em 1989, Adoum recebeu o Prêmio Nacional de Literatura do Equador “Premio Eugenio Espejo”, concedido pelo Presidente do Equador por suas obras. Nomeado para o Prémio Miguel de Cervantes, o prémio mais prestigiado e remunerado atribuído à literatura de língua espanhola, recebeu de do poeta chileno Pablo Neruda (que ganharia o Prêmio Nobel de Literatura em 1971) a seguinte afirmação: “O Equador tem o maior poeta da América Latina”.
Em 2006, Adoum assinou uma petição em apoio à independência de Porto Rico dos Estados Unidos da América. Vindo a escrever cerca de 30 livros e 3 romances, o autor também traduziu para a língua espanhola obras dos seguintes autores: TS Eliot, Langston Hughes, Jacques Prévert, Yiannis Ritsos, Vinicius de Moraes, Nâzım Hikmet, Fernando Pessoa, Joseph Brodsky e Seamus Heaney. “Entre Marx y una Mujer Desnuda (Entre Marx e uma Mulher Nua) é um romance antiburguês, antimilitarista, antifascista e “antiliterário”, emocionante e exasperante pela violência da sua linguagem, pelo questionamento dos nossos valores culturais e pelo seu desafio a formas literárias tradicionais. Nele, o personagem fictício José Gálves é vagamente baseado no romancista equatoriano da década de 1930, Joaquín Gallegos Lara. Um trecho?
“Você disse que não tem interesse em contar as coisas, mas você conta, porque neste país (você sempre culpa o país por tudo) você não pode escrever aquele romance inatingível em que há é não Há personagens que se prestam à farsa de que estão vivendo ou viveram uma história. Gostaria de ver se você consegue isso em outro país: até a velha Virginia Woolf morreu sem ter conseguido o que se propôs a fazer : um romance cujo único tema era o silêncio. E como tudo se resume a um problema de escrita, você diz a si mesmo que está martelando palavras inutilmente, falsificando em ferro frio, e neste momento seu livro parece pedante, embora você confesse suas hesitações e as suas dúvidas, apesar de dar ao leitor não só as chaves do que nele acontece, mas também do que lhe acontece (“Se alguém for derrotado por um projeto ambicioso, disse Gálvez, o que vamos fazer, mas se é um absurdo, então sim.” “É imperdoável.”) Se alguém tivesse lido o absurdo daquelas páginas que você acabou de rasgar, você se sentiria envergonhado, mas não conseguiria deixar de lê-las, e se perguntaria com espanto: Fui realmente eu quem escreveu isso? Claro, talvez seja apenas o incômodo causado por não poder escrever regularmente nos últimos dias (“Não se preocupe, disse García Márquez, você viaja, tem que aceitar convites, sai de férias, pensa que está fazendo nada, mas dentro de cada um tem um negro que fica trabalhando para a gente”): foram tantas coisas: visitas, cartas, dívidas. Ou é o aborrecimento habitual: seu chefe pede que você faça cópias de um relatório enquanto se envolve em longas conversas eróticas ao telefone depois de ler a última edição da Playboy; Anteontem você foi almoçar com uma idiota que contrariava cada frase sua “para preservar a personalidade dela” e acreditava que o jantar terminaria na cama, como se isso tivesse sido possível com aquelas mãos gordas e aquela risada estridente. Ou um desânimo mais profundo porque você começou a limpar sua agenda e suas contas, assustado com a quantidade de quem morreu por deslealdade ou malandragem, quem morreu em viagem, quem morreu no casamento, quem morreu. de puro assassinato em prisões e estádios, endereços para onde você foi como uma carta e de onde voltou com uma inscrição diagonal no coração “morto o destinatário foi sem dizer para onde”.
Por sua vez, “El Amor Desenterrado” é um dos poemas emblemáticos de Adoum, escrito a partir de um excepcional achado arqueológico no Equador, no qual dois esqueletos de aproximadamente 8.000 anos se encontram num abraço: “Los Amantes de Sumpa”. Na obra, uma série de poemas de amor são caracterizados pela reinvenção permanente da linguagem a que o autor estava habituado.
Professora Universitária*