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“O cemitério de Praga”, de Umberto Eco

Trinta anos após a publicação de “O nome da rosa”, Umber­to Eco apresentou a seu público leitor “O cemitério de Praga”. Na ocasião, a obra, com quatrocentos mil exemplares vendidos na Itália em apenas um mês, espécie de “tratado sobre o ódio e o preconceito”, despertou profundo desconforto em setores religiosos conservadores da sociedade italiana, ao misturar per­sonagens históricos a “um anti-herói fictício, cínico e maquiavé­lico, capaz de tudo para conseguir se vingar de padres, jesuítas, comunistas, mas, principalmente, dos judeus”. Um trecho?

“Sinto um certo embaraço ao começar a escrever, como se pusesse minha alma a nu, por ordem — não, deus do céu!, diga­mos por sugestão — de um judeu alemão (ou austríaco, mas dá no mesmo). Quem sou? Talvez seja mais útil me interrogar sobre minhas paixões do que sobre os fatos da minha vida. Quem amo? Não me vêm à mente rostos amados… Quem odeio? os judeus, me ocorreria dizer, mas o fato de eu estar cedendo tão servilmen­te às instigações daquele doutor austríaco (ou alemão) sugere que não tenho nada contra os malditos judeus. Deles, sei apenas o que me ensinou meu avô: “São o povo ateu por excelência”, ele me instruía. Partem do conceito de que o bem deve se realizar aqui, não além-túmulo. Por conseguinte, agem somente para a conquista deste mundo. Os anos da minha meninice foram entris­tecidos pelo fantasma deles. Meu avô me descrevia aqueles olhos que nos espiam, tão falsos que nos fazem empalidecer… Sonhei com os judeus todas as noites, por anos e anos. Por sorte, nun­ca encontrei algum… os padres… Como os conheci? Na casa do vovô, creio… pertencem às classes perigosas, como os ladrões e os vagabundos. o sujeito se faz padre ou frade só para viver no ócio, e o ócio é garantido pelo número deles… e entre os padres mais indignos o governo escolhe os mais estúpidos, e os nomeia bispos. Você começa a tê-los ao seu redor assim que nasce, quando o batizam; reencontra-os na escola, se seus pais tiverem sido sufi­cientemente carolas para confiá-lo a eles; depois, vêm a primeira comunhão, o ca­tecismo e a crisma; lá está o padre no dia do seu casamento, a lhe dizer o que você deve fazer… Mas, por que fazer filosofia em vez de reconstituir os eventos? Talvez porque eu precise saber não apenas o que fiz anteontem mas também como sou por dentro. Supondo-se que exista um dentro. dizem que a alma é somente aquilo que se faz, mas, se eu odeio alguém e cultivo esse rancor, santo deus, isso significa que existe um dentro! Como dizia o filósofo? Odi ergo sum.”

“O cemitério de Praga”, também retomando a impressionante e histó­rica falsificação de Os protocolos dos sábios de Sião, texto forjado pela polícia secreta do Czar Nicolau II para justificar a perseguição aos judeus, traz o odioso personagem Simonini, “que o próprio autor define como um dos mais repul­sivos personagens literários já criados”, mestre do disfarce e da conspiração, a reconstruir, com grande rigor histórico, tomadas de poder e revoluções, “revelando ferramentas usadas por falsários e propagandistas num trabalho memorável de filosofia da história e de natureza ficcional.

Nas palavras da crítica, um livro em que “Eco vence o de­safio de inovar seu próprio gênero, sem perder o leitor acos­tumado às aventuras físicas e intelectuais do romance erudito. Mostra que ainda é – para usar um termo que ele não aprovaria – o papa do suspense erudito”. Morto em 2016, aos 84 anos, Eco acreditava que os livros impressos não desapareceriam por cau­sa das versões eletrônicas e que a figura do intelectual era algo que influenciava no longo prazo, e não de forma imediata. Já relação ao jornal impresso, “Eu gosto de abrir as folhas do jornal tomando o café de manhã”.

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