Rui Flávio Chúfalo Guião *
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Quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, em 22 de abril de 1500, duas esquadras já tinham visitado a nova terra, em missão oficial do rei de Portugal: em 1498, sob o comando de Duarte Pacheco Pereira, os portugueses visitaram a região compreendida hoje pelo Pará e Maranhão. Em 1499, sob comando de Bartolomeu Dias, o primeiro a transpor o Cabo da Boa Esperança, na ponta sul da África, os navegadores chegaram ao sul do território, na região onde hoje de localiza Laguna, em Santa Catarina.
Curiosamente, fizeram explorações nos pontos norte e sul tocados pelo meridiano de Tordesilhas, demonstrando assim o desejo da Coroa Portuguesa de conhecer a terra que seria sua, depois da assinatura do Tratado de Tordesilhas, que dividia o mundo descoberto e a descobrir entre Portugal e Espanha.
As grandes navegações foram estimuladas pela queda de Constantinopla, hoje Istambul, em 1453. Até aquela data, o comércio do ocidente com a Ásia centralizava-se na capital do Império Romano do Oriente e era abastecido pelas cidades-estados de Gênova e Veneza.
Quando o sultão Maomé II tomou a velha capital, proibiu este comércio. Surgiu então a necessidade de se encontrar um caminho marítimo para as Índias,extra-Mediterrâneo, a fim de continuar o fluxo de mercadorias orientais, dando assim origem às grandes navegações pelo mar oceano.
Portugal e Espanha lideraram esta iniciativa, que tinha o sigilo como trunfo. Uma nação não deveria saber o progresso da outra.
Hoje, aceita-se como certo o fato de que o Bacharel de Cananeia, enigmática e mítica figura dos primeiros tempos de nossa colonização, teria chegado ao Brasil trazido na expedição de 1499, degredado que era do Reino.
Pouco se sabe das origens de Cosme Fernandes, chamado de o Bacharel de Cananeia. Era português, obteve o título de Bacharel, provavelmente na Universidade de Coimbra, o que demonstra ter conhecimentos diferenciados na época e deve ter sido condenado nos anos de 1494/1495, não se conhecendo seu crime ou crimes. O desterro era pesada pena e destinada a crimes graves.
O primeiro destino do desterrado foi a Ilha de São Thomé, possessão portuguesa, de onde foi levado para o Brasil. Trouxe consigo várias ferramentas, instrumentos, que auxiliaram-no a se aclimatar na nova terra, bem como e principalmente, sementes, que seduziram os silvícolas, introduzindo novas espécies de comida.
No Brasil, foi deixado na região onde hoje se situa Cananeia, dominada pelos índios carijós, que eram pacíficos e não matavam e comiam os estranhos, como faziam seus vizinhos tupis. Com sua formação universitária, logo aprendeu a língua e os costumes dos selvagens, incorporando-se à vida nativa e tornando-se um líder da população.
O Bacharel logo tomou conta da região, construiu portos na região de Santos e São Vicente, teve vários filhos que casou com outras índias e com degredados que eram deixados na nossa costa por piratas e corsários que buscavam o pau-brasil ou sobreviviam a naufrágios.
Quando Martim Afonso de Souza chega a São Vicente, em 1531, dando início a nossa colonização,encontra um povoado de 12casas, fundado pelo Bacharel. Em presença de Cosme Fernandes, toma consciência de que há mais de30 anos o conterrâneo vive na terra, cercado por seus inúmeros descendentes, seus índios escravizados e seu exército de mais de 1.000 homens, havia viajado mais de 250 km direção norte, expandindo suas propriedades e fundado a povoação, que daria origem a São Vicente.
O escritor Ídolo de Carvalho, morador de Cananeia e recém falecido, em várias obras e publicações, sustenta a tese de que a primeira vila da nova terra foi Cananeia e não São Vicente, como muitos ensinam. Seu fundador foi o Bacharel de Cananeia, que expandiu seus domínios dentro das linhas do Tratado de Tordesilhas.
* Advogado e empresário, é presidente do Conselho da Santa Emília Automóveis e Motos e secretário-geral da Academia Ribeirãopretana de Letras