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Neurociência da vida cotidiana (15): O Cérebro Deprimido 

“Meu cérebro (Minha alma, no original)” é uma orquestra oculta; não sei que instrumentos tangem e rangem, cordas e harpas, timbales e tambores, dentro de mim. “Só me conheço como sinfonia”. 

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego. 

 

José Aparecido da Silva* 

 O que é depressão? Todo mundo se sente triste ou deprimido às vezes, mas esses sentimentos geralmente passam com um pouco de tempo. A depressão, também chamada de transtorno depressivo maior ou depressão clínica, é diferente. Pode causar sintomas graves que afetam como você se sente, pensa e lida com as atividades diárias, como dormir, comer ou trabalhar. É uma doença que pode afetar qualquer pessoa — independentemente de idade, raça, renda, cultura ou educação. Pesquisas sugerem que fatores genéticos, biológicos, ambientais e psicológicos desempenham um papel na depressão. A depressão pode ocorrer com outros transtornos mentais e outras doenças, como diabetes, câncer, doenças cardíacas e dores crônicas. A depressão pode piorar essas condições e vice-versa. Às vezes, os medicamentos tomados para essas doenças causam efeitos colaterais que contribuem para os sintomas de depressão. 

Duas formas comuns de depressão são: A depressão maior, que inclui sintomas de depressão na maioria das vezes por pelo menos duas semanas que normalmente interferem na capacidade de trabalhar, dormir, estudar e comer. E o transtorno depressivo persistente (distimia), que geralmente inclui sintomas menos graves de depressão que duram muito mais tempo, geralmente por pelo menos 2 anos. Outras formas de depressão incluem: A depressão perinatal, que ocorre quando uma mulher sofre de depressão maior durante a gravidez ou após o parto (depressão pós-parto). O transtorno afetivo sazonal, que vem e vai com as estações, geralmente começando no final do outono e início do inverno e desaparecendo durante a primavera e o verão. A depressão com sintomas de psicose, que é uma forma grave de depressão em que uma pessoa apresenta sintomas de psicose, como delírios (perturbadores, falsas crenças fixas) ou alucinações (ouvir ou ver coisas que os outros não veem ou ouvem). Ademais, os indivíduos diagnosticados com transtorno bipolar (anteriormente chamado de depressão maníaca ou doença maníaco-depressiva) também sofrem de depressão.  

Quais são os sinais e sintomas da depressão? Os sintomas comuns de depressão incluem: 1) Humor triste, ansioso ou “vazio” persistente, 2) Sentimentos de desesperança ou pessimismo, 3) Sentimentos de irritabilidade, frustração ou inquietação, 4) Sentimentos de culpa, inutilidade ou desamparo, 5) Perda de interesse ou prazer em hobbies ou atividades, 6) Diminuição da energia, fadiga ou “desaceleração”, 7) Dificuldade de concentração, lembrança ou tomada de decisões, 8) Dificuldade em dormir, acordar cedo ou dormir demais, 9) Mudanças no apetite ou mudanças de peso não planejadas, 10) Dores ou dores, dores de cabeça, cãibras ou problemas digestivos sem causa física clara e que não melhoram mesmo com tratamento e 11) Tentativas de suicídio ou pensamentos de morte ou suicídio. A depressão parece a mesma em todos?  Importante, a depressão pode afetar as pessoas de maneira diferente, dependendo da idade.  

Assim considerando, depressão é uma doença cerebral derivando-se da interação complexa entre genes e ambiente.  Estima-se que mais que 300 milhões de pessoas no mundo sofrem de alguma forma de depressão. Apesar de seu devastador impacto na qualidade de vida, seus mecanismos neurobiológicos não são completamente entendidos. O diagnóstico, essencialmente, tem sido fundamentado nas orientações clínicas recomendadas pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mental e pela Classificação Internacional de Doenças, ambos frequentemente atualizados em função dos consensos dos especialistas na área. 

A neurociência cognitiva, em especial, baseando nas ferramentas de neuro imageamento tem desvendado como disfunções em estruturas específicas e nas redes neurais do cérebro subjazem e determinam a depressão. Particularmente, mensurando a atividade neural em distintas regiões cerebrais pode considerada uma metodologia de neuroimagem muito útil para predizer respostas aos tratamentos. Por exemplo, mensurações feitas por Ressonância Magnética Funcional (fMRI) indicam um importante papel da amígdala demonstrando, os dados, que uma maior atividade da amígdala previamente ao tratamento prediz muito melhor os desfechos para a terapia cognitiva comportamental, enquanto o oposto foi encontrado para o desfecho do tratamento com cetamina. Também, outras regiões cerebrais tais como o córtex pré-frontal (PFC) ou o córtex cingulado anterior (ACC) têm se mostrado funcionais na depressão. Uma atividade menos intensa no pré-tratamento no córtex pré-frontal ventrolateral durante uma tarefa emocional foi associada com uma melhor resposta à fluoxetina ou à venlafaxina em pacientes depressivos. 

Tomados juntos, estudos recentemente revisados por Arslan, A. (Application of Neuroimaging in the Diagnosis and Treatment of Depression, pp. 69-80, in Kin, Y-K (ed.), Understanding Depression: Clinical Manifestations, Diagnosis and Treatment, Springer, 2018) sugerem que imagens compreensivas do cérebro deprimido mostram um padrão de atividades neural elevada na amígdala, uma região cerebral envolvida na resposta emocional e de medo e uma atividade neural reduzida nas regiões do córtex pré-frontal que estão envolvidas no controle executivo. Importante, a acumulação de tais achados de neuroimagem revela, com sucesso, qual estado molecular, estrutural e funcional do cérebro poderá ser usado para diagnóstico e predição dos desfechos dos tratamentos. 

Professor Visitante da UnB-DF* 

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