Floresta Amazônica. Esta é a denominação que carinhosa e jocosamente meus filhos dão ao arvoredo que cerca minha casa. Anos atrás, minha esposa contratou paisagista renomado para dar um trato na chácara. Ele deu uma volta na propriedade e disse que, para começar, era preciso derrubar algumas árvores. Minha esposa vetou a ideia. “Ah, vocês querem um jardinzinho no meio da floresta”, foi o diagnóstico do profissional, que acabou fazendo um belo trabalho, sem eliminar nenhuma árvore de nossa “floresta”.
Logo cedo, quando abro minha janela, o verde invade meus olhos e minha alma. Lá estão o flamboyant, que uma vez por ano incendeia meu gramado, a grama que se mostra muito bonita neste período de chuva, as arvoretas da poinciana que plantei com sementes colhidas na calçada do Colégio Pequeno Príncipe e que se entrelaçam com a neve das montanhas, algodão arbóreo, a dama da noite, os ipês amarelos, os cajueiros, as jabuticabeiras e a imponente jaqueira, com seus grandes frutos pendentes do tronco da árvore.
Ao fazer o café da manhã – ritual que começa com escaldar o coador de pano e as vasilhas que vão receber o líquido, moer o excelente e premiadíssimo café produzido por meu primo Ênio Pasquali e seu filho Cacá em Santo Antônio da Alegria, na sua propriedade cortada pela divisa de São Paulo e Minas e, finalmente derramar a água quente, bem devagar, no filtro – fico observando as azaléias que circundam as duas grandes janelas da cozinha, sempre com pequenos pássaros saltitantes e alguma flor restante da grande florada de inverno. Ontem, notei uma trepadeira que tentava subir nos seus galhos, cuja ponta se movia lentamente, à procura de uma escora.
A minha varanda tem verde temporário e definitivo. Explico: um grande aparador de mármore preto recebe as orquídeas que estão floridas, ao lado do jardim permanente, com suas quatro palmeiras, onde coloquei orquídeas Miltônias de várias cores e que, agora, se enchem de flores. “Fadas ou bruxinhas?”, pergunta a excelente artista plástica ribeirãopretana Vânia Castaldelli, que viu nas suas formas a materialização dos entes imaginários. Palmeiras arecas enchem o canteiro lateral e é nelas que, com grande frequência, uma corujinha se esconde para passar o dia, tudo sob a sombra de um gigantesco pau-marfim.
A passarela, que liga a casa ao pavilhão onde reunimos nossos filhos e netos nos fins de semana – o que fazemos cada vez menos, pois os netos estão estudando fora – abriga uma gigantesca muda da trepadeira Jade Azul. Ficamos na expectativa de que ela lance suas flores em longos cachos, flores estas diferentes e chamativas, que dividem a beleza com a lágrima de Cristo vermelha, que pinta o verde de ambas, quando florida.
Quando me mudei para a casa onde moro, resolvi refazer o orquidário que mantinha em outros endereços e lá está a pequena estrutura de madeira, coberta por telas sombrites, bem mais moderna, pois minhas primeiras instalações eram cobertas com um ripado. Ali, silenciosamente, minhas orquídeas encontram temperatura e insolação suficientes para que vegetem e, uma vez por ano, produzam suas belas flores.
Meu escritório tem uma parede de vidro que me coloca em contato direto com os antúrios do jardim à frente. Nele, há espaço para o enorme pinheiro, que foi plantado desde pequeno para servir de árvore de Natal, mas, que cresceu tanto que se tornou impossível o acesso a esta finalidade. Dele a uma árvore de calistemo, a popular escova de garrafa, com suas flores vermelhas perenes, estendi um cabo onde coloquei meus treze vasos de Vandas. Elas são exigentes, têm raízes que extrapolam os vasos e, para produzir suas flores, precisam ser regadas de manhã e à tardezinha. O que faço regularmente, numa comunhão com a natureza indispensável para a alma e o espírito.