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Inteligência e seus descontentes (27): Testes de Inteligência versus Meritocracia

Em variadas sociedades é elevada, e generalizada, a desconfiança em relação a privilégios herdados, bem como, em relação a pessoas que parecem ter obtido sua riqueza, ou poder, por meio de métodos injustos. Em ambos os casos, normas, leis e regulamentos têm sido estabelecidos visando eliminá-los, bem como, visando favorecer o prestígio, as oportunidades ou recompensas conquistados, e concedidos, através da meritocracia, baseada no esforço pessoal. Esta, fornecendo oportunidades para as pessoas dignas não pertencentes à elite e ajuda concreta à sociedade para esta se desenvolver de modo mais eficiente, busca não despender recompensas e incentivos com pessoas que não fazem jus para tal.

Entretanto, tal como ocorre com muitas outras idéias e projetos, a meritocracia, embora muito bem descrita no papel, apresenta-se imperfeita na prática. Um exemplo? São diversas as pessoas que usam de seu carisma, de suas conexões sociais, e de comportamentos não éticos, para usufruírem de privilégios imerecidos e outras ferramentas que contornam as exigências de mérito. Como resultado, a pessoa errada é selecionada para um emprego ou uma oportunidade educacional, o que leva muitas pessoas a argumenta­rem que as meritocracias, em algumas sociedades, são manipuladas e que a hierarquia social que existe é uma falsa meritocracia. Dito de outra forma, a crença numa falsa meritocracia é que muitas pessoas com riqueza, ocupações prestigiosas e níveis mais avançados de educação são as mais bem merecedo­ras das coisas devido à sua posição na sociedade.

Vários estudiosos, todavia, questionam a justiça da meritocracia. Por exemplo, um grande estudioso da inteligência, o Professor Robert Sternberg, acredita que a meritocracia é “fraturada” e falha porque é limitada nos traços, habilidades e competências que ela recompensa. Outros, por sua vez, destacam que a meritocracia é um mito e uma noção equivocada e que a hierarquia estabelecida em muitas nações, principalmente as ocidentais, é um produto de opressão. Traduzidos para o português há dois livros: “A Tirania do Mérito” e a “Cilada da Meritocracia”, nos quais os autores analisam profundamente as várias implicações acerca da adoção da meritocracia como um ingrediente que permeia a hierarquia social no trabalho e na educação.

Independente da natureza exata e da amplitude de suas críticas da moderna meritocracia, muitos críticos veem os testes de inteligência padronizados, tais como os testes de admissão às universidades (FUVEST, ENEM, SAT, etc.) como uma ferramenta, ou instrumento, para criar uma falsa meritocracia. Estas pessoas veem os testes padronizados na educação, no emprego e em outras arenas da sociedade como um obstáculo para criar uma sociedade mais justa e mais igualitária. Sob meu ponto de vista, um traço que a sociedade moderna recompensa é a inteligência. Como resultado, posições de poder, prestígio social e segurança econômica são dominados por pessoas inteligentes, enquanto os níveis menos elevados da hierarquia social são desproporcionalmente representados por pessoas que desempenham de forma menos elevada nos variados testes seletivos usados no emprego, na educação e em outras arenas da vida.

Sendo a vida uma grande bateria de testes (nem sempre padronizados, mas cujo ingrediente-ativo é a inteligência geral, o fator “g”), isto é aparente quando examinamos as correlações positivas que inteligência tem com os desfechos ocupacionais e educacionais desejáveis e as correlações negativas que inteligência tem com desfechos desfa­voráveis. A verdade é que a sociedade (a minha, a sua e a de nós todos) recompensa altos níveis de inteligência (g) por variadas razões. Cientes disto, o que devemos é fomentar, sempre, o capital cognitivo.

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