Tribuna Ribeirão
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Histórias e palavras são recordações da existência 

Edwaldo Arantes * 
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Em uma conversa matinal tecendo frases desprovidas de importância como se diz nas minhas terras, “conversa de esperar o trem”, ao lado de um amigo muito querido saboreando um cafezinho forte regado a pão de queijo. 
 
Instantaneamente contou-me que seu pai por volta dos noventa anos costumava dizer: “todo homem ao chegar à velhice precisa ter histórias a contar”. 
 
No momento achei a frase um tanto quanto irrelevante, entretanto na madrugada ao lado do fiel confrade Tinto Seco Português e sua amada primeira dama senhora “Taça de Cristal”, pus-me a pensar e refletir sobre o dito. 
 
Realmente as histórias são as nossas marcas, um conjunto de ações e acontecimentos norteando a nossa trajetória desde a tênue infância até os passos trôpegos e instáveis demonstrando o correr dos anos. 
 
Uma coletânea de lembranças revivendo o que causou felicidade ou desgosto, réplicas da existência. 
 
Histórias não são apenas instantes alegres traduzidos em uma “Via Sacra” de nascimentos, batizados, formaturas, namoros, noivados, aniversários, casamentos, bodas e tudo que trouxe contentamento. 
 
São também acidentes, desencontros, perdas, separações, velórios, moléstias, velhices, bengalas e tudo que causou dor e sofrimento. 
 
Absolutamente nada pode deter o ritmo calmo e melodioso do cantar dos pássaros ou o alucinante correr da carruagem, das chuvas mansas nas roseiras ou negras tempestades desaguando em águas revoltas levando as felicidades e os infortúnios, de nada adianta lamentar ou festejar é simplesmente, vida. 
 
Abrindo a segunda garrafa, associei a história à memória, reminiscências imitam o desenrolar de um novelo tecendo o suéter, estradas e suas curvas sinuosas e retas enfadonhas. 
 
Assaltam nossos pensamentos onde tentamos apagar apertando os olhos, totalmente inútil, acontecem velozmente pulando datas e misturando passado e presente. 
 
Vejo-me menino no banco Escolar do Grupo Campos do Amaral, ansioso esperando a distribuição da prova final de álgebra. 
 
Em um lampejo transporto-me com minha filhota Marina a Ouro Preto, estamos no sacro salão da Igreja de São Francisco de Assis, altares dourados e as esculturas do genial Antônio Francisco Lisboa, os sinos badalam tristes ao entardecer anunciando o “Angelus”. 
 
Meus quarenta anos saboreando frango ao molho pardo, pastéis de angu, broas de fubá e as velinhas sobre o bolo de nozes no restaurante “ O Profeta”. 
 
Retorno ao primeiro beijo escondido atrás da figueira onde se esculpiam corações sangrando, ilustrados apenas com as primeiras letras dos nomes de dois adolescentes apaixonados. 
 
Em meio a este turbilhão as lembranças brotam rabiscando palavras, frases e versos em uma lousa imaginária. 
 
Surge fevereiro de 2025, recebo uma mensagem de destacada e sábia personalidade do mundo jurídico e talentosa articulista interpelando-me:  
 
-Você tem lido meus artigos? Nunca se manifesta. 
 
Não tenho por hábito comentar textos seja de quem for, caso incomodem-me apenas desprezo, ao agradar-me abro um sorriso tímido de contentamento,  como é o caso da brilhante e sensível escritora. Nos últimos artigos alterou seus conteúdos, no que comentei: 
 
Você conseguiu introduzir poesia, levou vida aos leitores, estavam por demais acadêmicos. 
 
Palavras que falam somente da razão retratam a fria realidade cartesiana, as que atingem o coração revelam emoções despertando sentimentos, sonhos e esperanças. 
 
O caminho é seu, o talento a guiará ao percorrê-lo. 
 
Abraços fraternos. 
 
Carinhosamente respondeu: 
 
Com seus textos colocou a pena em minhas mãos como fez a muitos. 
 
Ao adentrarmos a curva da vida relemos os capítulos com maturidade e entendimento, olhando para trás sem míseros rancores ou alegrias exageradas. 
 
A fonte inesgotável é a palavra, quando plantamos florescem frases, não fechamos o livro, apenas concedemos uma pausa deixando as páginas abertas e as raízes já crescidas fincadas jorrando fartas colheitas protegidas pelas sombras das letras esperando surgir o que ainda precisa ser dito. 
 
As palavras fogem quando precisamos delas e sobram quando não pretendemos usá-las”. Carlos Drummond de Andrade. 
 
* Agente cultural 

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