Tribuna Ribeirão
Saúde

Fertilização artificial – O sonho da maternidade

De acordo com a Cons­tituição Federal, o planeja­mento familiar é um direito do cidadão e compete ao Estado propiciar os recursos educacionais e científicos para o exercício deste direito. A reprodução humana é ofe­recida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) desde 2009, em doze hospitais distribuídos pelo país. No Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (HC-RP) o procedimento é oferecido gratuitamente há mais de duas décadas. No en­tanto, o tempo na fila de es­pera pode passar de três anos. Quem apela ao Judiciário para conquistar o tratamento e engravidar vive a incerteza de decisões de juízes. A quan­tidade de processos (acór­dãos em segunda instância) passou de oito, em 2015, para 20, em 2016, alta de 150%.

Segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitá­ria (Anvisa), entre 2011 e 2016, o número de fertilizações in vitro (FIV) realizadas no esta­do aumentou 133%. O total de procedimentos saltou de 6.522 para 15.191 – aporte de 8.669 casos. Apesar de sofrer uma queda na comparação entre 2015 e 2016, os números ainda representam um crescimen­to expressivo no segmento e, o São Paulo é responsável por 45% de todos os processos de reprodução humana assistida realizados no país.

De acordo com o Marcos Moura, médico especialis­ta em reprodução humana assistida da Clínica Matrix, o aumento pode ser expli­cado, principalmente, pelo fato de as mulheres optarem por engravidar mais tarde. Os dados da Anvisa mos­tram que, entre 2011 e 2016, o total de embriões congela­dos no estado de São Paulo subiu de 12.892 para 30.142 – disparou 133,8%, com 17.250 a mais. “Muitas mu­lheres que querem postergar a gravidez para idade mais madura, adotam a prática de congelamento de óvulos, a fim de garantir que estes sejam saudáveis quando fo­rem implantados no futuro”, comenta o médico.

Outros fatores, como o aumento de clínicas especia­lizadas neste tipo de trata­mento, também interferem neste resultado. Em todo o estado são mais de 40 clíni­cas – Ribeirão Preto é a cida­de fora a capital com a maior quantidade delas, seis clíni­cas, e Campinas fica em se­gundo lugar com três estabe­lecimentos. Em 2011, eram apenas 24 no estado – cres­cimento de 66%. A queda nos preços dos tratamentos também pode ser considera­da um fator importante para esse crescimento. “Hoje em dia, além do custo já redu­zido do tratamento, existem programas criados pelas clí­nicas que pode diminuir em até 75% o valor de uma FIV”, explica o médico.

Para o médico, as mudan­ças nas regras do Conselho Federal de Medicina (CFM) também ajudaram a impul­sionar esses números, já que atraíram para essas clínicas, pacientes que até então não faziam parte de interessados nestes tratamentos. “Com a regulamentação da FIV para casais homoafetivos, a barriga de aluguel por parte de paren­tes, a doação de óvulos com­partilhada com diminuição dos custos de tratamento, en­tre outras, democratizaram a possibilidade de uma gestação e isso aproximou mais pessoas das clínicas de fertilização as­sistida”, destaca Moura.

Clínica de RP oferece tratamento subsidiado
O alto custo de procedimen­tos como a fertilização in vitro ou inseminação artificial impede que muitos casais, que dependem de tratamento para infertilidade, realizem o sonho da paternidade e maternidade. Em alguns casos, tais casais recorrem à Justiça contra planos de saúde, para que os tratamentos sejam libera­dos. Segundo o médico Marcos Moura, muitos dos pacientes que procuram sua clínica, deixam de realizar o sonho de terem um filho, justamente pelo preço dos procedimentos.

Moura procurou criou uma al­ternativa, o “Programa Ser Mãe”, que oferece o tratamento de fertilizações in vitro para casais que não podem arcar com os pre­ços do mercado. Para participar, os interessados devem ter renda familiar mensal de até R$ 5,7 mil comprovada por meio do imposto de renda ou rendimentos, como o holerite. Moura, conta que já atendeu mulheres que tinham plena capacidade financeira e emocional de educar um filho, mas que não dispunham de recursos extras para bancar o tratamento.

Para a criação do programa, a Clínica Matrix buscou parceria com fornecedores, a fim de redu­zir custos. Os interessados em participar do programa passam por uma triagem e são chamados de acordo com um número men­sal pré-estabelecido pela clínica. Se preencherem os requisitos do programa, será agendada uma consulta, onde serão avaliados diversos fatores para determinar o tipo de tratamento necessário. “Levamos em conta a história clínica, antecedentes pessoais de cada paciente, entre outros fatores”, comenta Moura.

A psicóloga ribeirão-pretana, Erica Bevilacqua, foi mãe aos 39 anos. Ela conta que no início ficou ansiosa, “mas encontrei um médico que foi muito atencioso e sincero comigo, me explicou bastante sobre tratamento e, como isso, fiquei mais segura”. “Acredito que o fato de ter ficado mais calma depois, também aju­dou no sucesso do tratamento”, comenta.

Erica diz que tentou engravi­dar pelo método tradicional por quatro anos e não conseguia. “Foi então que meu ginecologista me pediu alguns exames e me orientou a buscar algum profis­sional especializado em fertiliza­ção assistida”, finaliza.

A clínica não informou o valor do tratamento, que pode variar de caso a caso e tentativas de gravidez. Mas ressaltou que nos casos do Programa Ser Mãe, os descontos podem chegar a 40%. O Tribuna apurou que um tratamento atualmente pode custar entre R$ 15 mil e R$ 25 mil, dependendo da cidade e do tipo de tratamento.

Maternidade tardia e com segurança

Sala de embriões da Matriz: Moura criou o “Programa Ser Mãe”, que oferece o tratamento para casais que não podem arcar com os preços do mercado

A fertilização assistida tem sido uma forte aliada para muitas mulheres que querem realizar o sonho de mãe até os 45 anos de idade. Uma pesquisa realizada pela Fundação Oswal­do Cruz (Fiocruz) mostra que 52% das mulheres que planejam suas gestações têm acima de 35 anos e quase 60% tem maior escolaridade, além de relações estáveis (49,5%).

Para construir uma carreira sólida e amadurecer os planos futuros, muitas mulheres têm encontrado apoio nos avanços da medicina, na área de repro­dução humana, para realizar o sonho de ser mãe mais tarde, de forma segura.

Nos últimos anos, as chances de sucesso dobraram na fertilização in vitro – proce­dimento que envolve a retirada dos óvulos do corpo da mulher, para fertilização em ambiente laboratorial, para obter pré-em­briões de boa qualidade, que são transferidos, posteriormente, para a cavidade uterina.

Fonte – Marcos Moura, médico especialista

Fertilização assistida: o perfil das pessoas
A maior parte situa-se acima dos 35 anos de idade, com an­tecedentes de estarem tentando gestação há mais de dois anos e que na maioria das vezes já passaram por tratamentos mais simples como indução de ovulação, coito programado ou mesmo a inseminação intra-úte­ro. São casais de todas as faixas econômicas e sociais.

Há risco?
Todo tratamento de fertili­zação envolve riscos, mas eles são pequenos e previsíveis na maioria das vezes. Os efeitos mais comuns são aumento do volume ovariano que causa des­conforto abdominal e retenção hídrica com leve inchaço em membros inferiores. Ocasio­nalmente podem ocorrer dor abdominal, inchaço dos seios e desconforto após a coleta dos óvulos. Em casos extremos ocorre a Síndrome da Hiperesti­mulação Ovariana com aumento exagerado dos ovários e ascite. Entretanto essas complicações mais sérias são evitáveis mesmo durante o processo de estimula­ção ovariana.

Qual a probabilidade de dar certo (ter filhos)?
A probabilidade de sucesso depende de inúmeros fatores como idade da mulher, antece­dentes patológicos, qualidade ocitária, presença de endome­triose grave, fator masculino grave, etc. Mulheres abaixo dos 35 anos de idade tem a priori mais de 50% de chances de sucesso. A chance de sucesso depende principalmente da qualidade embrionária depois de colhidos os óvulos e fertilizados com os espermatozóides.

O tema ainda é desconhecido?
Existem muito desconheci­mento das técnicas realizadas além de um certo preconceito por se achar que são realizados métodos “não naturais”. O que é feito no tratamento de fertiliza­ção in vitro é uma imitação do que ocorre naturalmente, qual seja, o encontro dos óvulos com os espermatozóides que ao invés de ocorrer no organismo materno será feito no labora­tório. Existem normas já bem determinadas pelo Conselho Fe­deral de Medicina que norteiam os procedimentos como número de embriões a serem transferi­dos, congelamentos de óvulos e embriões, etc.

Quais os primeiros passos, quais os procedimentos iniciais?
Se um casal está desejando engravidar e não obtém sucesso após um ano de tentativas o primeiro passo é procurar ajuda com o ginecologista e urologis­ta. Se houver necessidade esses profissionais encaminharão para um tratamento de reprodução assistida. Se houver antece­dentes femininos de infecção pélvica, suspeita de endome­triose, cirurgias abdominais, dificuldade para ovular ou idade superior a 35 anos o ideal é iniciar a investigação mais pre­coce. O mesmo ocorre em casos de homens com antecedentes de criptorquidia (testículo que demora para descer para a bolsa escrotal) ou história de traumas testiculares.

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