Tribuna Ribeirão
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Envelhecer é uma… 

Prof.ª Dr.ª Maria Helena da Nóbrega *
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Mala pronta. Documentos e ingressos na bolsa, já verificados várias vezes. Tudo organizado para viajar de madrugada. Para estar bem no dia seguinte, o melhor é ir cedo para a cama. 21h. Cadê o sono? 21h30.Levaros remédios de uso contínuo. 22h15. Tento relaxar com meditação. 23h. Ler um pouquinho, para ver se o sono vem. 0h30. Chá de camomila. A quebra na rotina desregula o ciclo circadiano, e o corpo se recusa a acelerar o relógio biológico. Viro para cá, ajeito o travesseiro, viro para lá. Quem nunca?

Alguns cochilos entremeados por pensamentos ansiosos. E se o hotel for barulhento? Não esquecer o tampão de ouvido para dormir. E se fizer frio? Melhor levar uma blusinha. A excursão promete. Dos 40 passageiros, poucos se conhecem. A maioria são mulheres, sobretudo 60+. Diferentes classes sociais, experiências de vida diversas, expectativas distintas.

O interesse comum, além da diversão, é o tema da peça que vamos assistir: o relacionamento entre mãe e filho. Mais ainda que os atores são bastante conhecidos do grande público.

Eu não esperava muito, estava preparada para entretenimento fácil. No entanto, fui surpreendida por tema bem explorado sobre conexão emocional, crise de identidade, vínculos, cobranças, ressentimentos, desencontros, reencontros. Um texto forte, bem escrito e bem representado. Lá pelas tantas, surge a fala que ficou marcada para a maioria:

– Envelhecer é uma m….!

A frase, repetida algumas vezes pela atriz, foi o que mais se comentou nas 5h de viagem de volta. Todo o restante do roteiro, do engraçado ao profundo, foi esquecido, e a peça toda passou a ser resumida em uníssono:

– Envelhecer é uma m….!

Que pena essa sinopse para texto teatral tão bem escrito!

O envelhecimento é um dos preconceitos mais perniciosos na sociedade. Quem envelheceu provavelmente vivenciou a experiência primeiramente pelo olhar do outro. São os pronomes “senhor”, “senhora” que começam a denunciar o que as pessoas veem, muitas vezes antes que a própria pessoa se dê conta.

Juntamente com esses termos, vem o preconceito. De repente a sua opinião não importa mais, a sua solicitação é desconsiderada, as vozes aumentam de volume ao se dirigir a você, como se você fosse surdo. Relacionamentos amorosos, então, são raros, dada a censura da sociedade e a glorificação da juventude e do corpo idealizado pelos critérios vigentes.

Com frequência os idosos assumem esses estereótipos e, aí sim, envelhecem. Encaixam-se no papel socialmente destinados a eles, uma quase não existência à espera da morte.

Há também os que resistem a essa construção social e mantém-se ativos, felizes, sobrepondo-se ao papel social que lhe é atribuído. Esse grupo está aumentando em número, felizmente. A atitude é a melhor maneira de responder ao preconceito.

Gradativamente se disseminam várias ações para conscientizar o público sobre o envelhecimento. Na internet há conteúdos sobre envelhecimento saudável, formação continuada, voluntariado, viagens.

Nos últimos anos melhoraram as políticas públicas para saúde, lazer, entretenimento, assistência social, direitos que atendem à crescente longevidade dos brasileiros.

O que ainda não avançou é a percepção interna dos próprios idosos. A maioria reclama, lamenta, lastima, é um chororô generalizado. E não me refiro aos que enfrentam restrições físicas sérias. Ouço a reclamação dos que estão bem.

Em síntese, o próprio idoso fala mal da velhice. Facilmente adota o discurso que atribui à juventude a melhor fase da vida e fantasia a mocidade que teve, sempre com tintas maravilhosas – será? Não sei não, às vezes parece devaneio, ficção.

Nas conversas, há dois temas predominantes: os remédios do presente e a saudade do passado: “No meu tempo…”.

Nesse caso, o próprio idoso reforça o preconceito, e esse é precisamente o maior problema do processo de envelhecer.

Nenhuma política pública terá efeito se não houver mudança na maneira como o idoso interpreta o envelhecimento. As ações externas são importantes, precisam existir e devem ser cobradas para que se expandam cada vez mais. No entanto, a transformação mais efetiva é interna, é a maneira de ver a velhice, é a atitude.

Em síntese, a metamorfose que precisamos é individual, além de institucional. É de dentro para fora. É recriar-se continuamente e valorizar o instante, o presente. É entender as experiências que trouxeram você até aqui.

As atitudes positivas em relação à velhice devem se conectar com ideias e falas confiantes. Não aceitar elogios disfarçados de preconceito, como em “Você não parece a idade que tem”. A mensagem implícita é que, na sua idade, as pessoas estão ruins, péssimas. Ora, aparentar a idade que se tem é um sinal de saúde, um anúncio de uma vida bem vivida. Responda: “Nossa, eu gosto de aparentar a idade que eu tenho. Foi tão bom chegar até aqui, nem te conto”.

O melhor é mudar a frase da peça teatral.
Envelhecer é uma alegria.
Envelhecer é uma experiência.
Envelhecer é um prêmio.
Envelhecer é um privilégio.
Envelhecer é curtir uma nova etapa da vida.

* Professora aposentada da Universidade de São Paulo, na área de ensino de português para estrangeiros 

 

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