Tribuna Ribeirão
Artigos

Enunciado: cacófato e anagrama

Várias vezes a alteração de uma letra na palavra modifica o sentido do enunciado, transformando um elogio numa sentença condenatória.

Na hipótese do cacófato, o choque fonético entre a última sílaba de um vocábulo, soando ao lado da sílaba inaugural da palavra seguinte tem o condão de confundir o interlocutor.

O grande poeta Luís de Camões muito viajou pelo planeta redondo descoberto pelos portugueses. Há quem afirme, com fundamentos em algumas suspeitas, que teria tido amores por onde andou. Uma de suas musas, com certeza europeia, chama­va-se Natércia.

Um meu amigo brasileiro, admirador de Camões, deu a sua filha o nome da musa Natércia. Assim que a menina passou a sair de casa, as pessoas conhecidas rebatizaram-na. Natércia pas­sou a ser Ana Tércia. O “na” de “rebatizaram-na”, chocando-se com o de Natércia, faz soar “nana”. A minha professora de portu­guês, se tivesse examinado, a frase imediatamente sublinhava o cacófato com tinta vermelha e tascava nota baixa.

Há quem diga que Camões teve uma musa no oriente, en­quanto navegava pelo rio Mekong. A musa chamava-se Diname­ne que viajava com o vate. O navio afundou. A mala com a escri­ta original de Os Lusíadas foi para um lado, a Dinamene para o outro. Camões teve que decidir se salvava Dinamene ou perdia sua obra máxima; se recuperava Os Lusíadas, perdia Dinamene. Se verdadeira a história, o poeta salvou seus versos que até hoje se encontram em nossas estantes. Teria Dinamene soçobrado nas águas do Mekong, se verdadeira a história. Os Lusíadas, não.

Camões escreveu um poema para a musa falecida. Uma musa falecida? Cacófato. “uma musa”? Vamos a Camboja e as palavras do poeta: “Alma minha gentil que te partiste, tão cedo desta vida des­contente”. Se a minha professora de português fosse convocava para corrigir Camões, lascava outra nota baixa. Cacófato, diria, onde já se viu “alma minha”. Maminha? Zero, Camões, cacófato!

Os anagramas não eram proibidos. Nem são. José de Alencar batizou uma índia com o nome de Iracema. Onde se viu uma índia com este nome? O nome foi arranjado pelo romancista. Misturou as letras de “América” que virou “Iracema”, nome desconhecido pela língua dos índios. Pode? Pode. Só não pode perguntar se pode.

Machado de Assis encerra Dom Casmurro atribuindo a Jesus, filho de Sirah, a regra a ser cumprida: nunca tenhas ciúmes da tua mulher para que ela não venha trair-te com a malícia que aprendeu de ti. Mas o Jesus Nazareno e algumas vezes Jesus Galileu, também é Jesus Siriático?

A resposta é negativa. O Jesus citado em Dom Casmurro não é o Jesus Cristo. Trata-se de outro Jesus que escreveu um livro da Bíblia, como nome de “Eclesiástico”. Trata-se, portanto, de Jesus, filho de Sirac, ou Ben Sirá ou Sirácides, que viveu 185 anos antes de Jesus Cristo, já então grande conhecedor da filosofia grega.

Outro de seus provérbios: “Filho, ampara a velhice de teu pai, não lhe causes desgosto, mesmo que esteja perdendo a lucidez; se tolerante com ele; a ajuda prestada a teu pai não será esqueci­da, mas será plantada em lugar dos teus pecados”.

É possível caminhar pelas letras de Machado de Assis, trazen­do aos nossos olhos um escritor que viveu quase 200 anos antes de Cristo?

O que seria 200 anos antes dos nossos dias. Marcaria uma data próxima dos 1.800, quando então o Brasil ainda mantinha a escravidão e não tinha inaugurado nenhuma escola de nível superior. Quando teremos um Jesus, filho de Sirah? Machado de Assis responde?

Postagens relacionadas

Padre Antônio Vieira, o democrata

Redação 1

De mal a pior

Redação 1

‘Pai Nosso’ salve ‘Ave Maria’

Redação 1

Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência no site. Ao continuar navegando, você concorda com a nossa Política de Privacidade. Aceitar Política de Privacidade

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com