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Do Capitólio à rocha Tarpéia 

Rodrigo Gasparini Franco *
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A política internacional é um campo onde a glória e a ruína frequentemente se entrelaçam, separadas por uma linha tênue que pode ser cruzada a qualquer momento. A expressão latina “arx tarpeia Capitoli proxima” – “A rocha Tarpéia está próxima do Capitólio” – nos lembra que o triunfo e a queda estão perigosamente próximos. Ela remonta à Roma Antiga, onde o Capitólio simbolizava o poder e a vitória, enquanto a rocha Tarpéia era o local de execução de traidores. Essa ideia ressoa com força no recente encontro entre o presidente Donald Trump e o líder ucraniano Volodymyr Zelensky na Casa Branca, um evento que simboliza tanto a busca por poder quanto os riscos inerentes às complexas relações geopolíticas atuais.

Trump, em seu segundo mandato, enfrenta um cenário global marcado por tensões crescentes. A guerra na Ucrânia, que já dura anos, continua a ser um dos maiores desafios geopolíticos do século, colocando os Estados Unidos em uma posição central como principal aliado de Kiev. Zelensky, por sua vez, luta para manter o apoio ocidental enquanto enfrenta uma guerra de desgaste contra a Rússia, que não dá sinais de recuo. O encontro entre os dois líderes, embora carregado de simbolismo, reflete as dificuldades de equilibrar interesses estratégicos, pressões internas e a imprevisibilidade do cenário internacional.

Para Trump, a reunião com Zelensky é uma oportunidade de reafirmar o papel dos Estados Unidos como potência global, mas também expõe os dilemas de sua política externa. Enquanto busca projetar força e liderança, ele enfrenta críticas internas sobre o custo do apoio à Ucrânia, especialmente em um momento em que parte de sua base política questiona o envolvimento americano em conflitos estrangeiros. A polarização política nos Estados Unidos adiciona uma camada de complexidade, tornando cada decisão um potencial campo minado. Qualquer sinal de hesitação ou concessão pode ser interpretado como fraqueza, tanto por aliados quanto por adversários.

Zelensky, por outro lado, chega ao encontro com a difícil missão de garantir que o apoio americano continue firme. A Ucrânia depende não apenas de ajuda militar, mas também de suporte econômico e diplomático para resistir à agressão russa. No entanto, essa dependência coloca o líder ucraniano em uma posição delicada, onde qualquer movimento pode ser visto como uma concessão excessiva ou uma demonstração de vulnerabilidade. A proximidade entre o triunfo e a queda, simbolizada pelo Capitólio e pela rocha Tarpéia, é uma realidade constante para Zelensky, que precisa equilibrar as expectativas de seu povo com as demandas de seus aliados.

O cenário global atual amplifica essa tensão. A Rússia, sob a liderança de Vladimir Putin, continua a desafiar a ordem internacional, enquanto a China observa de perto, buscando expandir sua influência em meio ao enfraquecimento das alianças ocidentais. Para Trump, manter a unidade entre os aliados da OTAN e sustentar o apoio à Ucrânia é um teste de sua habilidade como líder global. No entanto, a crescente competição com a China e os desafios econômicos internos tornam essa tarefa ainda mais árdua, evidenciando a fragilidade do poder em tempos de crise.

O encontro na Casa Branca, portanto, é mais do que um gesto diplomático; é um reflexo das complexas dinâmicas que moldam o mundo contemporâneo. Assim como na Roma Antiga, onde o Capitólio representava o auge da glória e a rocha Tarpéia a queda iminente, Trump e Zelensky caminham em uma linha fina entre o sucesso e o fracasso. Para ambos, o momento exige decisões calculadas, mas também carrega o risco de que qualquer erro possa transformar o que parece ser um triunfo em um prelúdio para a ruína. Em um mundo onde alianças são frágeis e interesses se chocam, o encontro entre Trump e Zelensky é um lembrete de que a glória, por mais brilhante que pareça, está sempre à sombra de sua própria fragilidade.

* Advogado e consultor empresarial de Ribeirão Preto, mestre em Direito Internacional e Europeu pela Erasmus Universiteit (Holanda) e especialista em Direito Asiático pela Universidade Jiao Tong (Xangai) 

 

 

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