Tribuna Ribeirão
Artigos

‘Daiseiscou’

O português é uma língua que tem como mãe a língua latina, mas sobre ele houve uma fortíssima influência de outras línguas, como, por exemplo, a língua dos árabes. Os árabes exerceram forte poder político na Península Ibérica durante cerca de oito séculos, antes do nascimento da Espanha e de Portugal. Mesmo após a vitó­ria dos “Reis Católicos” permaneceram no território, contribuindo de maneira decisiva para a estruturação do nosso idioma.

O português sofreu outras importantes influências, como aquela exercida pelos galegos que se localizaram especialmente no noroes­teda Espanha.Os galegos tinham vindo do norte da Europa. Eram então denominados bárbaros. Eles e os vândalos espalharam-se por todo o mundo ibérico.

São notáveis os vestígios da língua gálica, vinda de uma região acima do Rio Reno, portanto, hoje em território alemão. Nós usa­mos a palavra “guerra” de origem alemã e não “bellum” que tem o mesmo sentido, que é de origem latina. Tanto assim é que o material usado na guerra, nós, os neolatinos, continuamos a falar “bélico”. O português sofreu fortíssima influência do galego.

De certa vez, estive em Santiago de Compostela, região na qual o espanhol falado é muito parecido com o português e numa rua encon­trei um jovem que tocava gaita de fole para receber alguma ajuda.

Perguntei se ele era escocês porque, enfim, tocava gaita de fole. Imediatamente e um pouco zangado respondeu-me que era espa­nhol da Galícia. Era galego então. Lembrou-me que aquela região, no passado distante, era denominada o”fim da terra” conhecida, ou “finis terrae”.

Acrescentou, com certo orgulho, que foram os gauleses que atravessaram o mar levando a gaita de fole para a terra dos ingleses. E, naqueles velhos tempos, como gauleses, criaram o “Pais de Gales”, que leva no nome a marca de identidade dos gauleses. Agradeci de toda forma a aula de história não somente do instrumento musical, como também do desenho da comunidade europeia.

Os grandes mestres que olham para a história das palavras, lembram que sempre ou quase sempre os países mais fortes impõem também o uso de sua língua. Assim os romanos e os gregos espa­lharam seus vocábulos no mundo existente na origem da civilização cristã. Nos tempos modernos o inglês, notadamente no Brasil, vem exercendo fortíssima influência linguística.

Há um ao atrás, mais ou menos, fui convidado para participar de um debate, quando um dos participantes, da área jurídica, pronun­ciou algumas vezes um som que me pareceu ser “daiseiscou” ou coisa parecida. Tratava-se deuma expressão nascida além-fronteiras que não consegui compreender.

Ao final dos trabalhos, indaguei a um dos assessores o que sig­nifica “daiseiscou”. Esclareceu dogmaticamente que a ilustre autori­dade apenas havia pronunciado a conhecida expressão latina “dies a quo” em inglês, evitando, daquela forma, o uso da fala tradicional.

Sabemos que a expressão latina, “dies a quo”, muito usada no Brasil até hoje, significa o dia inicial de uma relação jurídica, em contraste com “dies ad quem”, que indica o dia do seu encerramento.

Mas pronunciar “dies ad quem” como “daisescou” para vibrar o ouvido dos juristas com um sotaque anglo-saxônico foi a primeira vez que atingiu os nossos ouvidos assustadoramente.

Seria possível afirmar quea língua inglesa, bem afastada da estrutura lógica criada por gregos e romanos estava ganhando tal prestígio internacional que pelo menos no Brasil moderno devemos pronunciar o latim segundo o seu modelo para tentar comprovar a nossa pobre modernidade ou a nossa enfraquecida soberania.

Postagens relacionadas

A Colômbia e sua Literatura (23): Josefa Acevedo de Gomez  (I) 

Redação 2

Cavalo de Troia: negociação com a Fazenda Nacional

Redação 1

Nosso último boêmio se mandou

Redação 1

Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência no site. Ao continuar navegando, você concorda com a nossa Política de Privacidade. Aceitar Política de Privacidade

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com