O bailarino e coreógrafo Djalma Moura estará em Ribeirão Preto neste final de semana com o espetáculo “Depoimentos para fissurar a pele”. Serão duas apresentações: no sábado, 2 de junho, e no domingo (3), sempre às 20 horas, no Centro Cultural Orunmilá (rua Orúnmilá nº 100, Parque Industrial Tanquinho, Zona Norte), com entrada franca.
Nestes dois dias, o artista ministrará oficina de dança, também gratuita, no mesmo local, às 15 horas. O espetáculo faz grande sucesso por onde passa, com salas lotadas. A proposta inicial do projeto era criar um corpo capaz de se transformar em bicho, como um bisão, búfalo, ou outro ser que não apenas o humano.
A partir deste ponto, o artista encontrou caminhos e poéticas negras, além de narrativas que dialogam diretamente com o corpo negro e que mobilizam o máximo do imaginário desse corpo. Desta forma, o coreógrafo chegou às mitologias e filosofias Iorubas africanas: os Orixás. O projeto tem apoio do Programa de Ação Cultural (ProAC) Primeiras Obras de produção de espetáculos e temporada de dança.
Iansã é o Orixá que dá corpo para esse trabalho. Inserida diretamente nas coreografias, os movimentos de palco concentram-se em seus arquétipos e analogias em relação à natureza – sejam elas dentro do aspecto animal ou de tempo – como os ventos, as tempestades, os raios, o búfalo; todos estes elementos são utilizados como disparadores do processo criativo das danças e movimentos de “Depoimentos para fissurar a pele”. O vento transforma, e para sentir o vento é preciso receber Oya – Iansã e toda sua carga de revolução e resistência.
“A incorporação ou invenção de Iansã é pensada a partir das modificações dos estados corporais. Uso da respiração como combustível para o movimento. Incorporação no terreiro, antes da chegada completa da entidade ou Orixá, é um estado de êxtase, de euforia, onde o corpo deixa de ser único para se receber energia”, explica Djalma Moura, que arquiteta este projeto desde o ano de 2015.
No palco estarão Djalma e o Ogã, músico e artista Leandro Perez, cuidando de toda a percussão que permeia a dança. O músico será peça fundamental para a dramaturgia do trabalho, construindo junto ao bailarino todo estado de cena, o clima e as propostas sonoras que proporcionarão tempero especial ao espetáculo através dos atabaques e dos ganzás e caxixis.
“O foco principal deste trabalho se dá pela tentativa de transmutação, incorporação, ou invenção desses estados. É criar a poética e construção de narrativas, por se tratar de um assunto primordial que é a diáspora africana, que se faz presente no contexto central do Projeto. A raiz desta dança é ser orquestrada por um corpo negro na cena, o que já é por si só uma grande provocação sobre muitas situações cotidianas”, diz Djalma Moura, que afirma também que a religiosidade afro-brasileira é muito estigmatizada ainda nos dias de hoje.
“Os artistas negros, principalmente na cena da dança contemporânea, também são. Usar essas duas instâncias no mesmo espaço é provocar discussões, anunciar e resistir enquanto propostas legítimas e tão contundentes quanto outro assunto”, dispara Djalma Moura. Além do espetáculo, o projeto tem oficinas gratuitas.
A oficina “Depoimentos para fissurar a pele”, com Djalma Moura, tem como premissa compartilhar dos procedimentos de criação que construíram a obra coreográfica, passando pelas danças contemporâneas banhadas pelas simbologias e arquétipos de Iansã.
Exercícios de respiração, deslocamentos, transformações de qualidades corporais e composição coreográfica. O público-alvo são artistas da dança, do corpo, estudantes e interessados no geral. A classificação é livre e tem duração de duas horas. Vagas limitadas a 20 pessoas. As inscrições podem ser feitas via e-mail – djalmahfmoura@gmail. com e [email protected].
Ficha técnica – Djalma Moura é responsável pela concepção e interpretação, com orientação de cena de Deise de Brito. O músico criador é Leandro Perez e a preparação corporal de Everton Ferreira. Criação e operação de luz de Piu Dominó. A arte gráfica é de Carol Zanola, com fotografia e vídeo de Erico Santos, que assina a produção executiva. O figurino é de Wellington Al.