Destaque nos anos 80 e 90 pela sua performance esportiva e aparição nas mídias regional e nacional, a fisiculturista ribeirão-pretana Betty Tessuto, 60 anos, vive atualmente um drama. Quando desfrutava do conhecimento adquirido pelos treinamentos e de sua fama, atuando como personal trainer em São Paulo, capital, atendendo muitas pessoas famosas e bem sucedidas, a atleta viu seu mundo virar de ponta cabeça e foi parar num hospital. As sequelas persistem até hoje. Cadeirante, Betty teve que apelar às redes sociais em busca de ajuda.
Betty Tessuto foi capa de revistas e convidada a participar de programas de rádio e televisão, muitos deles líderes de audiência nos anos 90, como por exemplo, Jô Soares, Carlos Alberto de Nóbrega, Marília Gabriela, Clodovil, Silvia Popovic, Serginho Groisman e participação na famosa banheira do Gugu. “Até o Silvio Santos quis me conhecer. Fiz inúmeras participações e entrevistas”, lembra.


Tudo isso amparado pelo seu corpo de fisiculturista e sucesso nas competições nacionais e internacionais. “Iniciei nos anos 80, quando a mídia nem sabia pronunciar ‘fisiculturismo’. Em 1986 morei na França. Vi as mulheres mais fortes, mais fitness, competindo. Vi que era aquilo que gostaria de fazer. Existiam poucas no mundo… lindas, nada exageradas. Misses fisiculturistas”, comenta.

A atleta faz questão de contar outro lado dela não muito conhecido. “Antes disso já havia publicado três livros de poesia. Poetisa mais nova de Ribeirão Preto. Fiz dez anos de piano clássico. Sou instrumentadora cirúrgica e trabalhava com oncologia na cabeça e pescoço”, revela.
Quando voltou da Europa para Ribeirão Preto, Betty fez uma parceria com o renomado técnico Chicão Carrara, que havia morado nos EUA. “Sabia tudo e iniciamos os treinos”.
Os treinos deram resultados. Foi tetracampeã paulista. Venceu torneios nacionais e internacionais. “Venci os sul-americanos na Bolívia e Venezuela. Fiquei entre as melhores do mundo na Bélgica”.
Com os títulos e aparições nos programas de TV as agendas para trabalhar como personal eram disputadas. “Dei aulas para Zezé de Camargo, Zilu, Vanessa Camargo, Carlos Jereissati, Otávio Mesquita, Leão lobo, Renata Ceribelle, e muitos outros”.
No final de março de 2017, Betty estava morando e trabalhando em São Paulo. “Trabalhava com a Bispa Sonia, era personal dela e de outras alunas. Um dia senti uma fisgada no ilio [iliopsoas – músculo na região lombar]. Achei que fosse distensão. Automediquei. Um mês depois me debilitei”, conta. Aí começava a reviravolta na vida dela.
Ela foi parar no Hospital das Clínicas de São Paulo com falência múltipla dos órgãos. O diagnostico era de septicemia. Tecnicamente chamada de sepse ou sépsis (antigamente conhecida como infecção no sangue) – uma doença complexa e potencialmente grave. É desencadeada por uma resposta inflamatória sistêmica acentuada diante de uma infecção e na maior parte das vezes causada por bactérias.
Ficou internada por um mês. Betty diz que os médicos descobriram a ação de uma bactéria denominada estafilococos. “Uma bactéria que todos têm na pele, mas nenhum mestre descobriu por onde elas entraram. Está em estudo”, diz indignada.
Ela revela ainda que de início tentaram vincular o que sentia com o uso de anabolizantes. “Falaram de imediato para eu parar. Mas eu não usava há muito tempo. Não competia mais. Depois que descobriram o que era, descartaram qualquer vínculo”.
A personal teve alta do HC de São Paulo. “Mas eu não andava. Sentia dores. Procurei um amigo médico e fui levada a um hospital na cidade de Barueri. Ou seja, me deram alta sem o problema ter sido resolvido. Em Barueri descobriram que eu precisava de uma cirurgia, e era muito cara.”
Novamente ela retornou ao HC de São Paulo, mas disse que foi informada que por ser um procedimento caro, a fila de espera era grande. O detalhe é que os microrganismos descobertos foram avassaladores. “Comeram” a cartilagem de parte do quadril e a cabeça do fêmur da personal e uma prótese seria necessária.
Cinco anos depois em Ribeirão
Com dores, na cadeira de rodas e sem trabalhar. Betty ficou cinco anos em São Paulo aguardando sua vez para a cirurgia que não aconteceu. Viveu com ajuda de familiares. Buscava dinheiro com campanhas virtuais para os custos em torno de R$ 50 mil, sem sucesso.
Há pouco tempo buscou ajuda de médicos em Ribeirão Preto, para quem havia trabalhado no passado. Há cerca de um mês a cirurgia foi realizada.
No entanto, Betty alega que a prótese colocada foi menor que o tamanho adequado. “A prótese quebrou, luxou, dentro de mim três vezes. Em duas semanas me levaram para o centro cirúrgico. Recebi muita morfina, anestesia geral, e recolocavam, sem me abrir”, relata.
Sem condições de se manter e de realizar tratamento pós-cirúrgico, Betty mais uma vez pediu socorro pelas redes sociais.

Uma dessas postagens chamou a atenção do repórter fotográfico Alfredo Risk, do Tribuna Ribeirão, que apresentou a situação ao diretor da Clínica Colucci, o fisioterapeuta Alexandre Colluci, que abraçou a causa. Lá recebe tratamento.
“Estou recebendo ajuda de algumas pessoas para me manter. Para me locomover. Tenho que pegar Uber para ir à clínica, algumas pessoas têm me ajudado. Não tenho vergonha em falar que realmente estou precisando de ajuda financeira nesse momento. Não consigo trabalhar e meu marido, que estava desempregado, conseguiu um bico, mas é pouco”.
Betty disse sentir mágoa de parte da mídia que não lhe dá apoio. “Dói muito. Mas sei que é assim. Sou apenas uma atleta muito machucada. Os anos 90 voaram. Ninguém tem memória. Sou só mais uma história pra contar”, finaliza.
Os contatos com Betty Tessuto podem ser feitos pelas redes sociais Facebook.com/betty.tessutorp e Instagram @bettytessutooficial