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As sibipirunas

Nas ruas do condomínio onde moro, caminho sobre um tapete amarelo, formado pelas pequenas flores das sibipiru­nas. Há algumas semanas atrás, estas árvores lançavam seu esqueleto desnudo contra o céu, num quadro meio macabro de troncos negros, com aparência de mortos. Porém, basta chegar a primavera, a primeira chuva e seus galhos se enchem de folhas de um verde europeu, que rapidamente adquiram aquele tom característico das plantas tropicais.

A sibipiruna é nativa da Mata Atlântica em sua porção entre a Bahia e o Rio de Janeiro e é, às vezes, confundida com seu primo, o Pau Brasil. As folhas são muito parecidas, mas o Pau Brasil tem pequenos espinhos em seu tronco. O nome é tupi e significa casca preta, embora seu tronco esteja mais para cinza. Ela está sempre sedenta e a água bebida por suas raízes é jogada na atmosfera. São 400 litros por dia, aumentando a umi­dade. Por seu porte, crescimento rápido e beleza espalhou-se pelo Brasil como árvore de paisagismo. Vive mais de cem anos.

Os Tupis chamavam de Tapuias as tribos que não con­seguiam entender a sua fala. No Sudeste, havia nove aldeias tapuias, todas próximas, cada uma guardada por uma árvore sagrada. A sibipiruna era uma delas e de seu tronco centená­rio extraia-se madeira para a confecção de máscara cerimo­nial. Esta é a lenda dos indígenas.

Suas flores, que recobrem a copa alta da árvore, transfor­mam-se em frutos dentro de uma fava, a qual, quando pronta produz uma explosão helicoidal de suas sementes, esparra­mando-as longe. E caem, cobrindo sua circunferência. É uma delícia pisar nestas cascas que produzem um som especial. Ainda hoje, quando as procuro para esmagar, me lembro dos tempos de infância, quando na Praça Camões, cujo chão se coalhava delas, passávamos longo tempo procurando-as e pisando-as para ouvir o estalido inconfundível.

Em menor escala, as flores do Jacarandá Mimoso, de um lilás azulado inconfundível também teimam em manchar os tapetes amarelos das sibipirunas. Nativo da Argentina e Sul do Brasil, ameaçado de extinção em sua zona nativa, ganhou a preferência dos paisagistas e colorem o país. Em Poços de Caldas, um renque ao longo de um riacho, no centro da cidade, é atra­ção turística, não só por suas flores como pelos longos tapetes azuis que decoram a cidade no início da primavera.

As árvores floridas são fundamentais para nossa vida e felicidade. Decoram a Terra, oferecem sombra e atraem pássaros na contínua faina de se reproduzir. Produzem um microcosmo riquíssimo de insetos e líquens. Descansam a nossa vista e diminuem nosso estresse. Caminhar pelas flo­restas é receita tiro e queda para afastar nossos momentos de angústia. Talvez o verde, com seus vários tons, nos acalme.

A comunhão que estabelecemos com nossos irmãos vegetais é indispensável para uma vida plena. Gosto muito de deitar as sementes na terra e vê-las crescer, soltar suas peque­nas folhas e depois observar a grande árvore que na semente estava escondida. Apesar de todo o progresso e desenvolvi­mento de nossos tempos, não perdemos a ligação primitiva com a terra. Queremos sempre ter um jardim, um vaso, uma floreira, que completam nossa vida e mantém este nosso vínculo com a terra-mãe.

É um grande privilégio caminhar à sombra destas árvores centenárias, encantar-se com suas cores, ouvir os pássaros que se escondem em sua ramada, estar em comunhão com a natureza.

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