O Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) já recebeu dez representações pedindo a cassação do mandato do deputado estadual Arthur do Val (Podemos), conhecido como “Mamãe Falei”.
Após o recebimento de todas as representações, os nove deputados que compõem o conselho serão comunicados, e Arthur do Val será notificado. A conduta do deputado poderá ser investigada pelas declarações consideradas sexistas que ele deu em um áudio enviado a amigos após deixar a Ucrânia. O áudio viralizou nas redes sociais.
As representações contra Arthur do Val devem tramitar no Conselho de Ética por um período entre 30 e 40 dias. Ao final do processo, o deputado pode ser absolvido, advertido ou até mesmo perder o mandato de forma temporária ou definitiva.
A perda de mandato, seja temporária ou permanente, precisará ser votada em plenário. O Podemos, partido do deputado, abriu procedimento disciplinar interno contra ele. Arthur do Val foi à Ucrânia em meio ao conflito instaurado no país e chegou a postar uma foto nas redes sociais, na qual estaria ajudando a produzir coquetéis molotov para combater soldados russos.
Ao deixar o país, na fronteira com a Eslováquia, o deputado enviou um áudio a amigos, elogiando a beleza das refugiadas. Em seguida, afirmou que pretende voltar ao Leste Europeu e disse que as mulheres são “fáceis” por serem pobres.
“Assim que essa guerra passar eu vou voltar pra cá. E detalhe, elas olham. E são fáceis, porque elas são pobres. E aqui minha carta do Instagram, cheio de inscritos, funciona demais. Não peguei ninguém, a gente não tinha tempo, mas colei em dois grupos de minas e é inacreditável a facilidade”, disse ele no áudio.
O presidente da Alesp, Carlão Pignatari (PSDB), afirmou que a fala de Arthur do Val foi “repugnante e inaceitável”, disse que a Casa “rejeita em absoluto as opiniões pessoais” do deputado e que “irá investigar a conduta com o rigor e a seriedade que requer”.
Na última sexta-feira (4), passaram a circular na internet áudios de Arthur do Val contendo declarações consideradas machistas e misóginas sobre mulheres ucranianas. “A fila das refugiadas, irmão. Imagina uma fila de sei lá, de 200 metros ou mais, só deusa”.
“Sem noção, inacreditável, é um bagulho fora de série. Se pegar a fila da melhor balada do Brasil, na melhor época do ano, não chega aos pés da fila de refugiadas aqui”, disse o parlamentar a um grupo de amigos no WhatsApp. De volta ao Brasil, Arthur do Val confirmou a veracidade dos áudios.
Ele pediu desculpas pelas declarações e retirou sua pré-candidatura ao governo de São Paulo. As declarações do político também foram repudiadas por Sergio Moro, pré-candidato à Presidência pelo Podemos, pelo governador João Doria (PSDB) e pelo presidente Jair Bolsonaro (PL).
Antes mesmo de “Mamãe Falei” retirar sua pré-candidatura em São Paulo, o ex-juiz e presidenciável pelo partido de Arthur do Val afirmou que não aceitaria dividir palanque com ele no Estado. “Mamãe Falei” reconheceu ter cometido “um erro em um momento de empolgação”.
“Não é isso que eu penso. O que eu falei foi um erro em um momento de empolgação. A impressão que está passando aqui é que eu cheguei lá, tinha um monte de gente, e eu falei: ‘quem quer vir comigo que eu vou comprar alguma coisa’. Não é isso. Eu fui pra fazer uma coisa, mandei um áudio infeliz e a impressão que passou é que fui fazer outra coisa”.
A Seccional Paulista da Ordem dos Advogados do Brasil realizou nesta segunda-feira a “Marcha contra a Misoginia”, em frente ao Monumento às Bandeiras, próximo à Assembleia Legislativa de São Paulo, em um protesto contra as declarações do deputado Arthur do Val.
Depois do ato, a entidade protocolou uma representação contra o parlamentar, com mais um pedido de cassação de seu mandato. A solicitação da OAB-SP conta com o apoio de todas as deputadas paulistas, que subscreveram o documento apresentado à Alesp, segundo a entidade.