Fernanda Ripamonte*
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Sala de cinema lotada, como não víamos ultimamente. Um sábado em horário muito bom para um filme tão esperado. Prêmio no Festival de Veneza: Melhor Roteiro, realizado por Murilo Hauser e Heitor Lorega. Teve como diretor, Walter Salles. Outras premiações são aguardadas, teve indicação ao Oscar pois, “Ainda Estou Aqui”, muito bem relata fatos verídicos da década de 1970. Na tela dos cinemas onde estão Rubens, Eunice e seus cinco filhos que viveram no Rio de Janeiro até que Rubens é levado por militares e desaparece. O corpo nunca foi encontrado.
Eunice, luta para saber do destino de seu marido. Baseado no livro biográfico de Marcelo Rubens Paiva, filho de Eunice e Rubens, o filme tem Fernanda Torres interpretando Eunice e Fernanda Montenegro, atriz e escritora, reverenciada como a “grande dama da dramaturgia brasileira”, sucede a personagem na velhice. O ator Selton Mello nos emocionou vivendo Rubens Paiva que foi Deputado Federal por São Paulo, eleito pelo Partido Trabalhista Brasileiro em 1963/1964 e teve o mandato cassado.
Sentimos as emoções de uma história que eu já conhecia. Em 1964 veio a “quartelada”, um golpe que instalava no Brasil nos tempos sombrios da ditadura militar que iria permanecer até a abertura política, com o processo de redemocratização na década 1980.
Guilherme Simões Gomes, preso na noite de 19 de outubro de 1969, sofreu torturas horríveis. Natural de Ribeirão Preto, tinha seu nome nas listas que o movimento militar emergente elaborou. Esteve no Presídio Tiradentes em São Paulo durante 18 meses, de 1969 a 1971. Sua biografia está em “Histórias do Professor Simões”, publicada em 2002 pela editora JetGrafic-São Paulo, da qual tenho a honra de ser autora.
Preparei a segunda edição lançada na Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto de 2024, pela editora Legis Summa, em homenagem ao Centenário da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto, comemorado em 1º de junho de 1924.
Guilherme, casado com Nydia Rigon, constituiu uma bela família, três filhos, genro, noras e netos, teve destacada participação na vida educacional e política de Ribeirão Preto. Foi catedrático da Faculdade de Odontologia da USP, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores na cidade, tendo disputado a eleição para prefeito em 1982. Absolvido pela Justiça Militar, o professor Simões foi convidado em 1972 para trabalhar em Recife, na Faculdade de Odontologia de Pernambuco. Regressou, em 1973 à Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto, onde se aposentou em 1980. Também esteve trabalhando na criação da Faculdade de Odontologia de Maringá, PR.
A obra destaca a sua origem familiar, desde o dia 17 de dezembro de 1913, quando nasceu na fazenda Jenipapo, filho de Joaquim Simões Gomes e de Maria Alexandrina Gomes, até seu falecimento em 15 de junho de 2007.
A Comissão Nacional da Verdade foi instalada em 16 de maio de 2012, instituída pela lei n. 12.528/2011 e encerrou suas atividades em 10 de dezembro de 2014, entregando um Relatório Final. O documento apontou 434 mortos e desaparecidos durante a ditadura.
A 12ª Subseção da OAB/SP, graças à sensibilidade de seu presidente, Domingos Stocco, de imediato acatou e instituiu a Comissão da Verdade, sendo a primeira subseção do interior a instalar na Casa da Advocacia de Ribeirão Preto uma comissão de grande importância, tendo sido nomeados: Anderson Polverel, Eduardo Silveira Martins, Feres Sabino, Rubens Zaidan e Saulo Gomes. Reunidos com a finalidade de resgatar da história dos advogados e advogadas de nossa região que lutaram em defesa dos presos políticos, das liberdades democráticas e das prerrogativas profissionais durante o período do Regime Militar, cumpriram rigorosamente a missão.
O filme recebeu da plateia, aplausos ao final.
Assim, estamos aqui, diante de um registro histórico.
* Advogada, escritora, presidente da Academia Ribeirãopretana de Letras