Tribuna Ribeirão
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A morte e o pão de queijo: duas verdades inelutáveis 

Prof.ª Dr.ª Maria Helena da Nóbrega *
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Antigamente pacientes de cidades pequenas levavam presentes aos médicos: galinha, ovos, garrafa de leite, porco. Mantenho o hábito, mas mudei os produtos. Vou de vinho, chocolate ou o imbatível pão de queijo. É um gesto singelo de agradecimento aos que me orientam nos cuidados com a minha saúde – médicas e médicos simpáticos, didáticos, acolhedores e bem-humorados. De minha parte, busco ser uma paciente engajada, comprometida com a adesão ao tratamento. Embora minhas consultas sejam de rotina, sinto empatia ao pensar no especialista trancado em seu consultório, ouvindo todo tipo de problemas, diariamente.

Essa introdução é totalmente verdadeira e retrata meu respeito aos profissionais que lidam com o sofrimento humano. No entanto, para continuar sendo honesta, esclareço que ela é também um recurso argumentativo para criar uma disposição favorável ao conteúdo não muito laudatório deste texto.

Começo por analisar o envelhecimento. Trata-se de tema cuja abordagem é urgente, em função do aumento da longevidade mundial e em especial no Brasil, que até 2030 terá mais idosos do que crianças e jovens. O preconceito contra os idosos está por toda parte: na exclusão do mercado profissional, na negação à vida sexual, na desvalorização das opiniões, para citar apenas alguns exemplos de marginalização das pessoas idosas.

Como o envelhecimento não é culturalmente visto como uma etapa natural da vida, os tratamentos de estética prometem acomodar as alterações aos padrões sociais, que insistem em glorificar a juventude. A impossibilidade de corresponder ao modelo imposto física e psicologicamente – ser magro e sempre feliz – gera ansiedade e depressão. Dá-lhe medicamento! Vendem-se até medicamentos para tentar erradicar sentimentos humanos normais nas situações difíceis da vida. Em certo sentido, parece haver um esforço generalizado para medicar pessoas saudáveis – inventar doenças, por assim dizer.

É como se algo tivesse dado muito errado, pois o envelhecimento, uma das grandes conquistas da medicina, é usado como gatilho na geração de problemas: não se pode envelhecer, deve-se esconder o envelhecimento com procedimentos cirúrgicos. Ou seja, toda a melhora na nutrição, nos cuidados com a saúde, nos avanços da medicina fica reduzida a valores estéticos.

Como a medicina é uma criação histórica, é possível mudar esse cenário, tal como foi feito em relação ao cigarro. Ações corretas colocaram o Brasil entre os líderes mundiais na redução do tabagismo. O mesmo enfrentamento precisa ser feito em relação ao envelhecimento e seus desdobramentos, de forma que as políticas públicas espelhem as conquistas na cura de doenças e no bem-estar.

Há livros, artigos científicos, manuais, mas a linguagem é para iniciados, não para iniciantes. Alguns médicos divulgam conteúdo de saúde na televisão e em redes sociais, mas no geral o discurso visa à monetização, ou seja, eles dizem o que convém à comercialização de medicamentos e procedimentos.

Guardadas as louváveis exceções, faltam médicos que digam fatos duros, mas inescapáveis, começando pelo óbvio: nascemos, crescemos e envelhecemos, na melhor das hipóteses. É preciso mostrar que o envelhecimento, bem como a juventude, tem aspectos positivos e negativos, dependendo dos fatores socioambientais e socioeconômicos.

A grande contribuição dos médicos é tratar os temas de forma bem didática, para que as pessoas entendam os processos de envelhecimento e morte. São assuntos penosos, cuja abordagem é repelida pela maioria, mas o enfrentamento pode aproximar médico e paciente, resgatar a confiança nos diagnósticos e dispensar as instâncias judiciais. Quem tem conhecimento tem certa responsabilidade moral de emparedar atitudes anticientíficas.

Doença, saúde, sintoma, é tudo uma construção social e, como tal, é fruto de determinado tempo e pode ser mudado. O dinheiro gasto em campanhas que criam ilusões sobre o padrão único de beleza, a juventude eterna e a necessidade de medicação para doenças inexistentes pode ser utilizado em ações para alertar e incitar posturas mais saudáveis nos pacientes. Vale tentar! Hipócrates agradece. A caminhada é longa. Garanto o pão de queijo.

* Professora aposentada da Universidade de São Paulo, na área de ensino de português para estrangeiros 

 

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