Reflexões sobre o caos no Sul
André Luiz da Silva *
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Entre as diversas notícias que chegam do sul do país, duas merecem destaque: os depoimentos de Dona Zoca e do senhor Alfredo, ambos com 98 anos. Talvez eles nem se conheçam, mas vivenciaram as consequências das inundações em Porto Alegre em 1941 e agora. É interessante ouvir suas preocupações com a repetição dos dramas. Vale lembrar que, a partir daquela trágica experiência, Porto Alegre desenvolveu um sistema contra enchentes, mas falhas de manutenção e de projeto agravaram o nível da atual inundação.
Entre as várias imagens da tragédia gaúcha, com inúmeros resgates e relatos de morte e destruição, o mar de lama que tomou conta da maioria das cidades continua preocupando e chamando a atenção. Além do cheiro de peixes e animais mortos, aquela lama pode trazer diversas doenças, entre as quais a leptospirose.
Notícias como homens cometendo abusos sexuais em abrigos, criminosos saqueando imóveis vazios, pessoas desviando doações e até mesmo gente tentando ressuscitar o fracassado movimento “O Sul é o Meu País”, que pregava a separação da região composta por Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, causam repulsa e indignação. No entanto, talvez o ato mais nefasto no momento da tragédia seja a disseminação das Fake News.
De modo aleatório ou bem orquestrado, influenciadores digitais e políticos espalham diariamente uma enxurrada de notícias falsas, que são repostadas de modo exponencial, principalmente atacando as autoridades. Desta vez, nem as forças armadas escaparam, justamente elas que até 8 de maio de 2023 eram proclamadas as grandes redentoras do país. Também é curioso ouvir os teóricos do “Estado Mínimo” cobrando histericamente ajuda dos governos, sem perceber o quanto está sendo investido para amenizar a dor dos brasileiros residentes no sul.
Senadores, deputados, governadores, prefeitos e vereadores que lutaram para afrouxar a legislação ambiental tentam a todo custo disfarçar suas parcelas de culpa. Agem da mesma forma aqueles que diziam que aquecimento global, buraco na camada de ozônio e Agenda ESG eram bobagens. Até supostas autoridades religiosas dizem tratar-se de um castigo divino contra aqueles que não professam a mesma fé.
O certo é que parece que não aprendemos com a pandemia da Covid-19 e não estamos aprendendo com essa tragédia climática na região sul. A inimaginável quantidade de lama que toma conta das cidades impressiona, e seus prejuízos ainda estão sendo contabilizados, mas a lama moral espalhada pelos agentes do caos é muito pior.
Uma caricatura que circula pela internet dá uma dimensão disso: enquanto um profeta prega o nono mandamento da lei de Deus, “Não levantar falso testemunho”, um homem vestido com a camisa da seleção brasileira indaga sobre a liberdade de expressão.
Os quase centenários Dona Zoca e senhor Alfredo presenciaram ou ouviram falar dos incontáveis avanços que o mundo experimentou. Também são contemporâneos de retrocessos históricos. Eles conhecem a bondade da humanidade, representada pela comovente corrente de solidariedade que se espalhou pelo Brasil e chegou a outros países com doações de todas as espécies e trabalho voluntário, desde a destinação de quantias milionárias até um simples e confortante abraço. Vale tudo para demonstrar que as vítimas não estão sozinhas. De outro lado, os anciãos também conheceram a perversidade daqueles que, em nome de Deus, de uma ideologia política, de um interesse pessoal ou econômico, utilizam de todos os expedientes, até mesmo das tragédias climáticas, sanitárias ou humanitárias, para levar algum tipo de vantagem. A esperança de ambos é a mesma nossa: que amanhã o sol volte a brilhar, as águas baixem e consigamos reconstruir as cidades, mas especialmente resgatar a dignidade, a saúde, o emprego, a esperança e tantos bens tangíveis e intangíveis que foram arrastados pela lama física e ideológica que assolam o Brasil.
* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista