Tribuna Ribeirão
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A estranha sensação de resistência ao novo 

Rodrigo Gasparini Franco * 
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Dias atrás, comecei a ler o romance Aurélien, do consagrado escritor francês Louis Aragon, e não pude deixar de refletir sobre a frase marcante que abre a obra: “La première fois qu’Aurélien vit Bérénice, il la trouva franchement laide” (em tradução livre: “A primeira vez que Aurélien viu Bérénice, ele a achou francamente feia”). Essa introdução provoca uma reflexão sobre as nossas primeiras impressões e como elas podem ser enganosas. Em um mundo que valoriza a aparência e o impacto imediato, a frase desafia o leitor a ir além do superficial, questionando o que realmente importa e como o tempo pode transformar percepções iniciais. 
 
No romance, a relação entre Aurélien e Bérénice não segue o padrão de encantamento típico das histórias de amor. Pelo contrário, começa com estranhamento e rejeição. Contudo, à medida que a narrativa avança, o que parecia ser uma barreira intransponível se transforma em algo mais profundo e humano. Essa dinâmica literária reflete uma verdade universal: muitas vezes, o que inicialmente nos causa desconforto ou rejeição pode, com o tempo, revelar-se essencial ou até apaixonante. 
 
Essa ideia se conecta à forma como lidamos com mudanças e novidades na vida cotidiana. Vivemos em uma era de transformações rápidas, especialmente impulsionadas pela tecnologia. Pense em quantos objetos que usávamos no passado foram substituídos por algo novo, muitas vezes de forma tão abrupta que mal tivemos tempo de nos adaptar. O telefone fixo, por exemplo, que por décadas foi um símbolo de conexão, deu lugar aos celulares, que por sua vez evoluíram para smartphones multifuncionais. O mesmo aconteceu com as máquinas de escrever, que foram substituídas pelos computadores, e agora, até mesmo os computadores tradicionais estão sendo desafiados por dispositivos móveis e tecnologias baseadas em inteligência artificial. Cada uma dessas mudanças trouxe consigo um estranhamento inicial, uma sensação de perda ou inadequação, mas, com o tempo, aprendemos a nos adaptar e, muitas vezes, a nos apaixonar por essas inovações. 
 
No entanto, essa adaptação nem sempre é simples. Assim como Aurélien precisou de tempo para enxergar Bérénice além de sua aparência inicial, nós também precisamos de tempo para aceitar o novo. A velocidade das mudanças atuais pode ser avassaladora, gerando nostalgia pelo passado e insegurança em relação ao futuro. A questão é: estamos preparados para lidar com transformações tão rápidas? Por um lado, a capacidade de adaptação é uma das maiores forças da humanidade. Por outro, a rapidez das mudanças pode nos deixar sobrecarregados e resistentes ao novo. 
 
Essa tensão entre o antigo e o novo é evidente em muitos aspectos da vida contemporânea. A transição do papel para o digital, por exemplo, ilustra bem esse dilema. Livros, jornais e cartas, que por tanto tempo fizeram parte do cotidiano, estão sendo substituídos por e-books, notícias online e mensagens instantâneas. Para alguns, essas mudanças são práticas e inevitáveis; para outros, representam uma perda de algo tangível e emocional. O mesmo ocorre com a música, que passou dos discos de vinil para os CDs e, agora, para os serviços de streaming. Cada avanço traz benefícios, mas também exige que deixemos algo para trás, muitas vezes carregado de valor sentimental ou cultural. 
 
O que Aragon nos ensina, por meio da relação entre Aurélien e Bérénice, é que o estranhamento inicial não deve ser definitivo. Assim como Aurélien precisou olhar além da superfície para descobrir a essência de Bérénice, nós também devemos aprender a superar o desconforto inicial que o novo pode causar. Isso não significa abandonar o antigo sem reflexão, mas encontrar um equilíbrio, valorizando o que já conhecemos enquanto nos abrimos para o que está por vir. 
 
A humanidade sempre viveu nesse limiar entre o passado e o futuro. O que hoje nos parece estranho pode, amanhã, tornar-se indispensável. Do mesmo modo que Aurélien descobriu em Bérénice algo inesperado e valioso, talvez possamos encontrar no novo não apenas progresso, mas também oportunidades de crescimento e transformação. O desafio está em dar tempo ao tempo, permitindo que o desconhecido revele seu verdadeiro valor, sem nos deixarmos paralisar pelo medo ou pela nostalgia. Afinal, é nesse equilíbrio entre o antigo e o novo que reside a essência da evolução humana. 
 
* Advogado e consultor empresarial de Ribeirão Preto, mestre em Direito Internacional e Europeu pela Erasmus Universiteit (Holanda) e especialista em Direito Asiático pela Universidade Jiao Tong (Xangai) 

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