Tribuna Ribeirão
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O torcedor e a gestão do futebol 

O torcedor e a gestão do futebol 
 
Daniel S Pitta Marques * 
 
André Lucirton Costa ** 
 
O torcedor de futebol quer que o time vença e mostra-se feliz com conquistas. Formar um time que dê resultado em campo é algo desafiador. Ainda assim, uma agremiação de futebol, seja ela associativa ou empresarial, é uma organização e, para tanto, precisa ser estruturada, planejada e sistematizada como tal. Os resultados esportivos refletem aquilo que acontece fora de campo, ou seja, em sua gestão organizacional. 
 
Clubes de futebol são instituições centenárias, sujeitas a crises financeiras e de gestão, mas que resistem graças à mobilização de seus torcedores. Eles vão a eventos esportivos, pagam ingressos, tornam-se sócios, organizam-se em grupos ou aderem a programas de fidelidade, mantendo vivo o histórico espírito de conquistas do clube. Como disse Nelson Rodrigues, “a torcida pode salvar ou liquidar um time. É o craque que lida com a bola e a chuta. Mas acreditem: o torcedor está por trás, dispondo.” Numa agremiação de futebol, os torcedores empurram a equipe e curam as feridas da derrota. Esperam anos “na fila” para comemorar uma conquista. Aplaudem e vaiam o time, pressionam atletas e dirigentes. Movimentam a economia do entorno, bares, restaurantes, faixas, musicas, baterias, organizam o carnaval e festas, arrecadam recursos e defendem o futebol como espaço coletivo conquistado. Mudar de time não é uma opção no Brasil: “virar a casaca”, jamais!  
 
Tal premissa, de que o torcedor é a razão da existência, principal cliente, patrimônio e ativo de um clube, deve fundamentar a gestão de seu arranjo organizacional. Clubes são marcas que carregam história, identidades e espíritos que tocam o coração, perpetuando-se por relacionamentos, conquistas e méritos futebolísticos. São fenômenos de construção coletiva.  
 
Independente do arranjo jurídico, a permeabilidade dessas organizações à paixão e ao envolvimento de sua coletividade deve ser premissa norteadora da estratégia, dos arranjos organizacionais e dos processos de decisão. Sua força emana do senso de pertencimento de sua coletividade. O torcedor quer ser incluído e ouvido. Torcidas organizadas acabam surgindo para, entre outros motivos, viabilizarem envolvimento nos processos, na estrutura formal e no espírito do clube, que representa parte relevante da história pessoal de cada torcedor. 
 
A maneira como funcionam os mecanismos da estrutura formal de controle e poder decisório é chamada de governança. Uma palavra cuja semântica é autoexplicativa e se refere ao sistema de regras, práticas e processos pelos quais uma organização é dirigida e controlada. Envolve o equilíbrio entre os interesses das partes interessadas (por exemplo torcedores, gestores, clientes, fornecedores, governo e comunidade) com o objetivo de maximizar uma geração sustentável de valor em longo prazo. No futebol, não há como trilhar tal caminho sem a satisfação de seu torcedor.  
 
Entretanto, garantir a satisfação com o desempenho esportivo é uma difícil tarefa em um ambiente competitivo, com altos graus de imprevisibilidade e complexidade. Um grande investimento na formação de uma equipe de futebol não garante que ela seja vitoriosa. Também não dá garantia de retorno financeiro e pode levar o clube a patamares de endividamento que comprometam seu futuro, com impactos esportivamente negativos em gerações.  
 
A resposta para esse dilema está nos princípios da boa governança, que regem as relações do clube com seus grupos de interesse. São princípios consagrados: a Transparência, que compreende a divulgação de informações relevantes, de forma a fortalecer a confiança e o vínculo entre os diferentes grupos; a Equidade no tratamento justo entre as partes; a Prestação de Contas (Integridade), que abrange a responsabilização de seus dirigentes nos resultados obtidos em diferentes áreas; a Conformidade no cumprimento de normas gerais, setoriais e internas; além da Responsabilidade Social Corporativa (Sustentabilidade). Tudo permeado por práticas como a independência dos diferentes órgãos de governança, efetividade no uso de recursos para obtenção de resultados, abertura à participação dos diferentes grupos de interesse, gestão de riscos, adoção de códigos de ética e conduta, além da prevenção de corrupção e ações ilegais ou antiéticas. 
 
Tal conjunto é fundamental para o aumento da confiança da sociedade na viabilidade futura do clube, seja em termos esportivos, financeiros ou reputacionais, colaborando positivamente com seu ecossistema. Mesmo que o clube não vença campeonatos, as práticas citadas colaboram com a preservação do legado histórico, social, econômico, esportivo e de identidade (pertencimento) do clube e de sua coletividade. A qualidade de uma boa gestão passa por fatores não precificáveis. O futebol traz consigo um espírito de agregação e comunhão, devendo o torcedor, seu maior ativo, ser incluído e tornado prioridade pela gestão do clube.  
 
* Doutor em Governança na gestão de futebol (FEARP/USP). Presidente do Conselho Deliberativo do Botafogo F C. 
 
** Professor da FEARP/USP e membro do Conselho Consultivo da ANATOR (Associação Nacional de Torcidas Organizadas). 

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