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A noite também é bela

Moradores de um país tropical, de céu azul com poucas nuvens e um sol que nos ilumina na maior parte do tempo, tendemos a considerar o dia como o grande destaque nas 24 horas que a Terra leva para girar em seu eixo imaginário. Quando pensamos em Brasil, imaginamos praias paradisíacas, campos a perder de vista, enormes plantações, floresta amazônica, tudo enfatizando este período en­solarado que desfrutamos neste pedaço de mundo onde vivemos. A esmagadora maioria de nós trabalha durante o dia, faz seus esportes e seus estudos de dia. Mas, engana-se quem pensa que a noite não tem seus encantos. Os notívagos, vemos como pessoas diferentes, talvez boêmios, uma tribo peculiar.

A noite começa ainda de dia, quando, de pijama no escuro, o Sol deixa penduradas nas nuvens as suas roupas de brilhar, criando im­pactantes belezas que corremos a registrar em nossas câmeras. Não é um quadro pequeno, mas gigantesca tela que toma todo o horizonte, colorida com cores de tintas mutáveis à medida que a noite se apro­xima. São explosões de vermelho, lilás, amarelo que se imiscuem nas nuvens e nos convidam a permanecer imóveis, contemplando-as.

De repente, chega a escuridão e tudo muda. Não conseguimos mais distinguir com clareza os detalhes das plantas, dos locais e mesmo das pessoas. As luzes da cidade, de nossas casas e de nossas ruas constroem uma nova realidade, preparando-nos para o merecido descanso de cada dia.

Para quem mora distante da cidade, como eu, noite significa si­lêncio, que nos envolve num manto hermético, rompido por alguns latidos distantes, e, poucas vezes, pelo canto cansado e triste do urutau. É hora de sossego, de ler um bom livro, ver uma boa série, revisitar nossas coleções ou, simplesmente, sentar na nossa poltrona preferida e degustar uma taça de bom vinho, meditando sobre como a vida é boa, vale a pena viver.

Também é hora da refeição da família, quando todos se reúnem à mesa, compensando a correria do dia a dia com conversa amena, análi­se dos momentos que tivemos e hora de planejar a agenda de amanhã.

A noite também é mistério. Se, de dia, tudo vemos e notamos, quando a escuridão se aproxima, nos envolvemos em sombras e meias realidades, dando um toque de desconhecido ao nosso ambiente. Os barulhos de nossa casa, se não ouvidos durante o dia, surgem e crescem à noite. Notamos com mais nitidez o bater das ho­ras, o vento que bate em nossas janelas, o cair eventual de um galho, o rangido das portas. E despertam medos primitivos, que trazemos de nossas memórias do início da civilização, memórias que dormem na parte primitiva de nossos cérebros. Pois, apesar do progresso e do desenvolvimento da humanidade, mantemos uma ligação ancestral com as experiências que nossos antepassados tiveram.

Minha avó paterna, Umbelina Palma Guião, era mestra em contar histórias noturnas. Moradora em fazendas distantes ou em cidades pequenas, sempre mantinha uma horta, onde cultivava os remédios ca­seiros de então. Várias vezes teve que vencer a escuridão, portando uma vela, para colher, por exemplo, o poejo que amenizaria o resfriado ou a gripe de seus filhos ou a erva doce, cujo chá cura as dores de barriga. E lá ia ela procurando na escuridão evitar o que sua imaginação via.

O lençol estendido no varal, tornava-se perigoso fantasma, a deam­bular pelo quintal. Os olhos iluminados do gambá, escondido numa moita, eram a presença de alma do outro mundo. Dizia que era uma provação buscar os remédios na horta. Contava de encontro de cavalei­ros noturnos com velas que flutuavam no ar. Acreditava piamente nisso e contava aos netos para evitarem o contato com coisas do além.

Gosto muito de ler antes de dormir. Livros estão sempre à mão no criado mudo e é neles que encontro a paz do silêncio de casa. Algumas vezes, um barulho mais forte desperta em mim um início de medo. Talvez sejam as estórias de minha avó, que permanecem para sempre na minha memória.

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